Por Fernando Barone.

Eu li Seconds (intitulado Repeteco na edição nacional, lançada pela Companhia das Letras em outubro) de Bryan Lee O’Malley em 2014, quando a Livraria Cultura trouxe volumes importados para sua loja Geek. Comprei o livro esperando algo nas linhas gerais de Scott Pilgrim, título que alavancou o autor ao estrelato da nerdice, mas fui — e muito — surpreendido.

Em Seconds, acompanhamos a protagonista Katie, que é chef de um restaurante de mesmo nome do livro. A garota mora num quartinho em cima do restaurante e está planejando abrir seu próprio estabelecimento. Como a maioria dos chefs que vemos em outras peças de entretenimento, Katie é mandona e não demonstra muito tato no que diz respeito ao tratamento dos funcionários. No fim de um belo dia de merda, no qual seu ex-namorado, Max, aparece no restaurante, Katie é acordada por Liz, um espírito ligado àquela casa, que a oferece um cogumelo. Se Katie comer o cogumelo e reescrever um momento que ocorreu nos arredores da casa antes de dormir, ele terá sido refeito quando ela acordar.

Os quadros típicos de O’Malley estão presentes em Seconds.

Os quadros típicos de O’Malley estão presentes em Seconds.

Liz só tinha oferecido um cogumelo. Katie pega o resto.

A partir daí acompanhamos a vida totalmente desequilibrada de Katie enquanto ela vai usando cada vez mais cogumelos para corrigir desde os acontecimentos mais imbecis até momentos que definiram sua vida, desencadeando uma série de mudanças inconcebíveis até então. Tudo escala magnanimamente naquela bem conhecida “bola de neve fecal” até o final da trama — que eu não vou contar para não perder a graça, né?

E Katie, assim como Scott no livro anterior de O’Malley, é meio cuzona; por estarmos na mesma posição do narrador, que nos revela pensamentos da garota, podemos ver que ela é bem egocêntrica e possui uma necessidade quase patológica de ser o centro das atenções, além de prestar zero atenção nas pessoas que passam pela sua vida na maior parte do tempo. O trunfo do autor é usar um personagem que tem tudo para ser desprezível e fazer com que você acabe se importando com o desenrolar da história e se preocupe com as consequências das escolhas malucas de Katie.

Apesar das similaridades entre protagonistas, Seconds tem, no geral, uma atmosfera mais adulta, que se traduz na mudança sutil no traço de O’Malley, nos diálogos e problemas abordados e na narrativa do livro, bem mais suave e espaçada que a de seu trabalho anterior. O’Malley apresenta quadros lindíssimos, com splashes bem posicionadas sem dar aquela impressão de “engorda aleatória” na história. Quem é fanzoca de Scott Pilgrim também vai se sentir em casa, com as fichas de personagens, onomatopeias literais e easter eggs do universo do canadense sem noção.

Conheça Katie, uma cuzona exemplar.

Conheça Katie, uma cuzona exemplar.

O que mais me chamou a atenção em Seconds é como toda a já batida coisa de alterar o passado e repensar decisões da vida adulta ganhou uma nova roupa, um novo peso, na história criada por O’Malley. O livro não te faz de idiota, não infantiliza (na medida do possível) os personagens e se mantém sólido na narrativa até o fim — uma baita de uma obra que mostra a maturidade do quadrinista com o passar dos anos.

Vale muito a leitura, seja você jovem, adulto, fã do autor ou alguém que caiu aqui por acidente. Pode comprar com gosto.