Sabe aquele livro que não sai da sua mesa de cabeceira? Ou aquele filme que você para o que estiver fazendo para assistir?

Às vezes, por diversos motivos, conseguimos criar uma ligação especial com um objeto de ficção, que marca determinado momento da nossa vida e passa a ter certa importância para nós.

Foi exatamente o que aconteceu comigo quando terminei de ler Daytripper, a HQ dos gêmeos brasileiros Gabriel Bá e Fábio Moon.

Deixando a fantasia dos super-heróis de lado para abordar temas mais reais como a vida e a morte, a obra dos irmãos é um belo retrato do mundo em que vivemos, e nos faz recordar, refletir e sonhar.

UMA HISTÓRIA QUE PODERIA SER A MINHA OU A SUA

Brás de Oliva Domingos é o protagonista da história. Ou melhor: sua história é a protagonista de Daytripper.

A HQ nos mostra a vida de um personagem da elite brasileira, do seu nascimento à suas diversas mortes. Sim, mortes, no plural. Mas já chego nessa parte.

A história de Brás conduz o leitor para uma jornada de reflexão.

A história de Brás conduz o leitor para uma jornada de reflexão.

Brás não tem poderes. Não acontece algo fantástico e extraordinário que muda o rumo de sua vida. Aqui, a própria vida é o extraordinário, com elementos que permitem aos leitores que se identifiquem de alguma forma com o personagem: da sua infância à descoberta do primeiro amor; das idealizações da juventude ao choque de realidade causado pela vida adulta, e dos sonhos construídos à frustração de aceitar essa dura realidade de que nem tudo acontece do jeito que imaginamos.

E a maneira com a qual os gêmeos conseguem captar os tipos de problemas e questionamentos relacionados a cada fase da vida é digna de elogios.

A infância do personagem cria uma ligação com o leitor mais velho, apelando para a nostalgia.

A infância do personagem cria uma ligação com o leitor mais velho, apelando para a nostalgia.

Assim como Craig Thompson fez em 2009 com sua famosa HQ Retalhos, fica claro que Gabriel e Fábio recorreram às suas memórias e experiências pessoais para construir parte da personalidade de Brás, e também o cenário que o cerca.

Os diferentes momentos da vida do escritor tornam a obra palpável para qualquer público: do jovem leitor que transborda aquela ingenuidade característica de alguém que está dando os seus primeiros passos no mundo, ao idoso que viveu uma vida plena, e enxerga o passado através de um olhar nostálgico.

A VIDA IMITA A ARTE, OU A ARTE IMITA A VIDA?

O que mais me chamou a atenção em Daytripper é como a estrutura narrativa trabalha à favor do conceito e da mensagem que a HQ transmite.

A história de Brás é contada de forma fragmentada e não-linear. Assim, cada capítulo começa nos mostrando um momento da vida do escritor e termina com a sua morte, narrada através do seu próprio obituário, que funciona como uma espécie de releitura moderna do clássico Memórias Póstumas de Brás Cubas (sim, é daí que veio o nome do personagem).

Em uma determinada parte, o pai de Brás diz para seu filho – e para o leitor – que a vida é feita de momentos que devem ser aproveitados intensamente. São esses momentos que nos definem e constroem a nossa história.

O pai de Brás tenta deixar um legado para o filho.

O pai de Brás tenta deixar um legado para o filho.

Esse diálogo cria uma espécie de metalinguagem que explica a estrutura narrativa da HQ: assim como a vida, Daytripper também é construída por pedaços: Brás morre aos 32 anos, vítima de um assalto. Também morre eletrocutado com 11, quando sua pipa enrosca nos fios elétricos; aos 33, sofre um acidente de carro; aos 47 não resiste a uma cirurgia de emergência – e por aí vai.

A estrutura narrativa de Daytripper: fragmentada, com as diversas mortes de Brás.

A estrutura narrativa de Daytripper: fragmentada, com as diversas mortes de Brás.

Por isso, é inevitável não pensar e refletir sobre a nossa própria vida no término de cada capítulo. Afinal, a única certeza que temos é que um dia a dona morte nos fará uma visita.

Quando? Não sabemos. Portanto, cabe a cada um de nós aproveitar enquanto há tempo.

RETRATO DA VIDA E DA MORTE

Através da história de Brás de Oliva Domingos, a HQ nos ensina que, diante do encontro inevitável com a morte, só nos resta viver.

Através de sua estrutura, Daytripper não só nos lembra constantemente que tudo pode acabar a qualquer instante, como também nos encoraja a abraçar nossa mortalidade e apreciar a vida, mesmo que ela tenha tomado um rumo diferente do que foi planejado (algo que o personagem tem dificuldade para aceitar e entender).

E é aqui que fica nítida a principal diferença entre a HQ e a obra de Machado de Assis: enquanto o Brás de Assis transborda uma visão amargurada e pessimista sobre a vida, o Brás dos gêmeos encerra sua jornada de forma mais otimista e deixando um legado (algo que Brás Cubas se gaba por não ter feito).

A principal mensagem da HQ: aceitar o fim.

A principal mensagem da HQ: aceitar o fim.

Afinal, como disse o pai de Brás de Oliva em uma carta, nós só conseguiremos viver e enxergar o melhor da vida à partir do momento em que aceitarmos o fato de que, um dia, nós iremos embora definitivamente.

E essa é a mais importante mensagem de Gabriel e Fábio: aceitar que existe um fim, para que possamos viver o durante.

UMA OBRA PARA O RESTO DA VIDA

Com mensagens simples e marcantes, Daytripper é leitura obrigatória para qualquer fã de HQs que queira pensar, sonhar, e quem sabe até mudar.

É aquele tipo de obra que, de tempos em tempos, será retirada da estante  para que possamos embarcar na jornada de Brás com outra percepção. Que nos fará olhar para a história de uma maneira diferente, graças aos momentos vividos desde a última leitura.

Pode confiar: Daytripper merece um lugar de destaque na sua prateleira.