Quando se joga muito todo tipo de game todos os dias é sempre bom ser surpreendido com algum título que, mesmo você sabendo por cima qual a premissa, consegue te prender do começo ao fim. É essa sensação que Guacamelee! Gold Edition me passou quando joguei.

Mas o que um game indie de plataforma sobre luta livre mexicana tem de tão divertido?

Andale, Juan!

Juan Aguacate é um simples morador em uma casa no interior da cidadezinha de Pueblucho, apaixonado pela filha do presidente local (El Presidente) desde criança. Um dia antes do grande festival do Dia de Los Muertos, tudo começa a dar errado: o vilão Carlos Calaca explode a mansão onde vivem o presidente e sua filha, a sequestra e, quando Juan tenta intervir, também acaba morrendo – ou quase isso.

Chegando no mundo dos mortos, Juan é presenteado com uma máscara de luchador que dá poderes incríveis a quem vesti-la. Com isso, ele volta ao mundo dos vivos e sai em busca de sua amada.

A premissa de Guacamelee! é o clássico “donzela em perigo”, mas isso não diminui de nenhuma forma suas personagens ou sua narrativa em geral, que é muito divertida e recheada de diálogos engraçados. Mesmo com tudo para ser um poço de estereótipos, ele foge do tradicional em diversos aspectos, principalmente com os bosses de personalidade diversificada e seu background pitoresco. Uma pena não sermos melhores apresentados aos passados das personagens (como é com Carlos Calaca, o vilão mór). Particularmente fiquei curioso com a história do amor platônico de um dos chefes, X’Tabay, com Calaca.

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Aliás, ponto para a localização para português brasileiro, que está sensacional e totalmente adaptada para nossa realidade. Muy bueno!

Lucha, hombre! Lucha!

Guacamelee! é um metroidvania, assim como o já analisado Steamworld Dig. E não é por ser inspirado e dois grandes games, Metroid e Castlevania, que Guacamelee! perde seu charme: além de ter um desenvolvimento rico quando se fala em acessibilidade dos mapas e de revisitar antigos lugares, o modo de luta do game é o que mais chama atenção.

Você começa com poucos golpes, e conforme você vai ganhando mais movimentos, logo bater nos milhares de esqueletos e monstros se torna algo natural. A evolução do jogador nos mapas, obrigando e ensinando o player a melhorar sua velocidade de resposta e habilidade em plataforming espelha diretamente suas atitudes quando está enfrentando um inimigo.

Aqueles movimentos que anteriormente você teve que aprender na marra para avançar em um mapa são facilmente adaptados em uma batalha contra um inimigo mais rápido ou maior, por exemplo, e todas essas referências e adaptações simplesmente acontecem. Conforme avança, o jogador para de pensar nas formas de vencer dos inimigos e, no instinto, já começa a calcular formas de vencer rapidamente combinando vários movimentos e golpes diferentes.

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No mais, o gameplay é insano. Algumas sequências de plataformas levam a habilidade do jogador ao máximo, e, quando concluídas dão aquela sensação de dever cumprido que não dá pra expressar em palavras. Grande parte das áreas e puzzles depende da sua habilidade de trocar de dimensões: mundo dos vivos e mundo dos mortos. O impacto na área não é considerável, apenas fazendo com que apareçam e desapareçam bases e paredes. A velocidade para alternar dimensões, pular e fazer algum movimento de luta em sequência é o que o que te define um HOMBRE/MUJER de verdade.

Sobre as dimensões, senti falta de uma importância maior nessa alternância de mundos. O impacto no gameplay, tirando puzzles e plataforming, é quase zero. Além disso, só algumas sidequests necessitam dessa troca, o que deixa uma das mecânicas mais refinadas e divertidas meio mal aproveitada.

Mucha Arte, Mucha Lucha

A cultura mexicana é extremamente rica, e Guacamelee! reafirma isso em cada área a explorar, em cada inimigo e em cada nova trilha sonora revelada ao longo da campanha. Os cenários ricos em detalhes e cores são de encher os olhos, ainda mais com tantas texturas e formas coloridas. A arte, caricata e que lembra muito os desenhos do Cartoon Network, combina bem com a proposta e enriquece ainda mais o jogo, fica tudo em sintonia. Apesar de que algumas vezes, mais especificamente quando você ganha um golpe novo, o piscar de cores é de fazer qualquer pessoa com labirintite ter um ataque – sem exagero.

Pelo menos resolveram isso na última atualização intitulada Guacamelee! Super Turbo Championship que traz uma série de melhorias e novas áreas.

Aqui fica um destaque para a trilha sonora, que além de ser ótima também ajuda a te ambientar. As músicas rápidas e cheias de batidas te deixam mais animado em explorar e acabar com qualquer inimigo que aparecer na sua frente.

https://www.youtube.com/watch?v=1NsRIB_9GZY

Muitas vezes você se pega parando em algum lugar ou enrolando em cidades e cenários para ouvir as músicas, que misturam música mexicana com chiptune e eletrônica.

Y entonces, muchacho?

Guacamelee! foi uma das minhas melhores experiências em jogos de plataforma desde os 16 bits do Super Nintendo e Mega Drive. Comprado despretensiosamente em uma promoção qualquer da PSN, o game ficou meses parado no meu HD do PS3. Que desperdício de tempo.

Guacamelee! é um metroidvania sólido, com ótima trilha sonora, história simples porém cativante e divertida, com sequências lindas de plataforming + puzzles. Tem um modo de batalha viciante, mas é um jogo meio curto (se você não “platinar”).

Para os fãs de jogos clássicos 2D, é quase que parada obrigatória, ainda mais pelo preço tabelado de R$ 30,99 (preço consultado em Abril/2015) na versão Gold (PS3 e PC) e na Super Turbo Championship (PS4, XONE, Wii U e PC), que oferece uma experiência ainda mais completa, com um boss a mais e mais áreas para explorar.

Parando para pensar, é um game extremamente barato e que oferece horas de jogo muito bem gastas. Prepare seus tacos, sua guacamole e “andale, cabrón! – vá logo vencer esse tal de Calaca!