[AVISO: este post contém spoilers]

O terceiro episódio de Life is Strange terminou de forma tensa e quase inacreditável, deixando os fãs com as bocas abertas e lágrimas nos olhos, torcendo para que os meses passassem voando para descobrimos o que Dark Room, o quarto episódio, nos reservava.

E como sempre, a DONTNOD mostrou estar um passo à frente de qualquer teoria e especulação, transformando o que deveria ser uma luz no fim do túnel em um desenrolar desesperador de acontecimentos brutais.

UM UNIVERSO CONSTRUÍDO POR DETALHES

Se vocês, assim como eu, ficaram extremamente obcecados pelos mistérios que cercam a trama de Life is Strange, provavelmente já devem ter permeado por um limbo de teorias das mais diversas que transitam entre o insano e o plausível, levantando questões que normalmente passam longe dos nossos pensamentos. Quero deixar claro que, antes do quarto episódio da série, debater teorias nos meus posts estava fora de cogitação, visto que todas não passavam de especulações sem qualquer comprovação. Mas com um episódio extremamente sensitivo como este, fui obrigada a me desprender dessas verdades absolutas.

Um exemplo disso é a arte de LiS, que como mencionei no primeiro post sobre a série, foi construída a partir de uma percepção lúdica e bastante detalhista, com cenários pintados a mão, que reforçam a preocupação da DONTNOD em apresentar um visual impecável. Dentro deste grande universo artístico habitado por Arcadia Bay, dois específicos tons de vermelho e azul ganham maior destaque com o decorrer da narrativa: seja no cabelo de Chloe, nos armários da escola, na jaqueta de Nathan ou no cardigan de Victoria, o vermelho e o azul estão sempre presentes, e como nada em Life is Strange está ali por acaso, as cores se tornaram mais um elemento da enorme simbologia da série.

A “teoria das cores” de Life is Strange não é nova e pode ser encontrada em diversos locais de discussão online: Youtube, Reddit, Steam Community e Tumblr (minha fonte favorita, diga-se de passagem). Alguns dizem que elas podem representar o bem e o mal, a empatia e o asco, a agressividade e a face do bom samaritano. Todas as possibilidades fazem sentido dentro do contexto apresentado, mas depois de jogar Dark Room, a sensibilidade me fez enxergar a anulação de uma dicotomia entre opostos. Pudemos finalmente aceitar que, assim como na vida real, os personagens de Life is Strange são construídos por camadas e nuances tão profundas quanto as nossas. A separação entre o bem e o mal deixou de existir, transformando a quarta parede em uma espécie de janela indiscreta pela qual podemos observar cada um dos personagens: seja Chloe, tentando buscar o equilíbrio da paz interna entre seu cabelo azul e tatuagens vermelhas, ou mesmo Nathan, que vive em conflito com sua saúde mental e a autoafirmação para sobreviver no clã dos Prescott.

A jaqueta vermelha e o colete azul: a metáfora de Life is Strange está em todos os lugares.

A jaqueta vermelha e o colete azul: a metáfora de Life is Strange está em todos os lugares.

Sei que isso pode parecer algo totalmente insano e confuso, mas a beleza de Dark Room está presente nos detalhes que transformam o olhar do jogador através de suas simbologias. Todos temos segredos, medos, angustias e características vistas como boas e ruins. E sim, todos nós tentamos encontrar o equilíbrio. Assim como Chloe.

UM PEDIDO DE DESCULPAS

Preciso confessar a todos que me acompanharam até aqui: eu estava completamente errada. Quer dizer, talvez a palavra “errada” não seja a melhor forma de expressar os meus sentimentos em relação à Chloe. Fato é que, antes do quarto episódio e suas longas e sofridas duas horas de duração, posso afirmar que eu havia interpretado a personagem de uma forma extremamente rasa em todos os seus aspectos. Relembrando o histórico de alfinetadas através das reviews anteriores, Chloe para mim não passava de uma típica adolescente chata, egoísta e extremamente dramática. A garota de cabelo azul com pose de punk de butique era o ser mais irritante que já havia pisado em Arcadia Bay.

Desde sua apresentação, Chloe assombra o fandom de LiS, criando discussões das mais absurdas nas profundezas da internet. Ela não é uma personagem neutra, mas sim construída ao redor de extremos, e isso fica ainda mais evidente com o impacto que a personagem causa nos jogadores, fazendo com que seus admiradores e haters a disputem como um cabo de guerra: cada lado puxando um de seus braços tatuados, anulando a existência de um grupo imparcial.

Review_LiS-Ep04-(InPost02)

Entretanto, o traumático desfecho do episódio 3, Chaos Theory, fez com que eu questionasse não apenas as minhas escolhas na pele de Max, mas também o meu discurso como Thaiana Bitencourt, redatora do Metagene e hater oficial de Chloe Price. Com a chegada do novo episódio, os jogadores foram atirados em um tornado de emoções, repleto de desdobramentos imprevisíveis. E onde eu estava? Lá no meio da catástrofe, desconstruindo minha firme e categórica opinião a cada giro.

Chloe, desculpa miga.

DA FICÇÃO A REALIDADE

A essa altura do campeonato, vocês provavelmente já perceberam que Life is Strange é um jogo extremamente inteligente, repleto de viradas em sua trama que equivalem a um belo tapa na cara. Com a invalidez literal de Chloe no final de Chaos Theory e a descoberta do porão de horrores em Dark Room, passamos a enxergar a história com os olhos da realidade, praticamente abandonando o traçado da ficção. E a jogabilidade ajudou a reforçar essa transição.

Com um estilo bastante diferente dos episódios anteriores, o minigame de detetive trouxe um lado ludológico pouco explorado na série até o momento: com informações recolhidas de três fontes diferentes ao longo dos quatro episódios, nos vemos obrigados a encaixar as peças de um quebra-cabeça que nos leva ao paradeiro de Rachel.

O lado investigativo da história foi bem explorado neste episódio.

O lado investigativo da história foi bem explorado neste episódio.

Acompanhando os fóruns na internet, pude notar que as pessoas mais sensíveis choraram do começo ao fim do episódio, fosse com a morte de Chloe através da dose extra de morfina, com Warren perdendo o controle, ou até mesmo com Nathan, implorando por perdão entre sangue e soluços em uma das sequências mais fortes da série até o momento. E o ponto alto, é claro: com o corpo de Rachel encontrado no lixão aos pés de Chloe, que entre lágrimas lamentava a perda de seu grande amor.

Mais uma vez, Life is Strange conseguiu tocar em feridas da vida real, abordando a realidade do ser humano em sua mais sublime forma, presente no cotidiano entre xícaras de café e conversas pelo telefone. É difícil ver o outro lado da moeda, mas ele existe, e está presente em cada um de nós.

UMA LIÇÃO DE VIDA

O quarto episódio de Life is Strange chegou com a finalidade de atar todos os easter eggs que colhemos até então, preparando o terreno para o tão aguardado season finale. Em meio a uma tempestade de emoções, podemos ver com clareza que o jogo vem amarrando as pontas de seu mistério desde o primeiro diálogo em sala de aula, deixando bastante claro quem são os vilões e mocinhos da nossa história. Mas nós, como detestáveis seres humanos do alto de nossos pedestais de falsa moralidade, julgamos a tudo e a todos, seja por uma isolada atitude superficial, pela primeira impressão, ou pelo que consideramos ser melhor ou pior.

Review_LiS-Ep04-(InPost04)

Através de seus diálogos, simbolismos e desenvolvimento, Dark Room conseguiu ultrapassar a linha tênue entre narrativa e reflexão, cumprindo com sua função inicial e apresentando as nuances que constroem o ser humano.

Depois de uma impactante reflexão e a revelação do verdadeiro vilão da história, tudo o que podemos fazer agora é esperar a chegada do último episódio, que provavelmente será lançado entre setembro em outubro, junto com o tornado apocalíptico do jogo (genial, porém macabro, DONTNOD).

E é claro que, até lá, ficarei com a mesma ansiedade que vem nos acompanhando nesses últimos seis meses de viagens no tempo.