O tempo passou rápido demais e, com ele, vimos Tales From The Borderlands nascer no desconhecido e encerrar a sua aventura com todos os nós atados.

Após tantas perguntas que o jogo lançou ao longo de seus quatro episódios, o quinto, The Vault Of The Traveler, veio carregado de respostas, resoluções convincentes e um dos melhores roteiros já escritos para um drama interativo.

SENTIMENTOS À FLOR DA PELE

Como mostramos aqui na resenha do episódio anterior, Escape Plan Bravo, TFTB apresentou uma faceta que ainda não havia sido explorada em sua construção narrativa.

Ancorado no humor, o título mostrou versatilidade e ousadia ao pisar em um terreno bastante diferente, obtendo êxito em sua nova aquisição dramática para a série. Até então, víamos o drama como algo exclusivo das adaptações televisivas criadas pela empresa – The Walking Dead e Game of Thrones – mas no quinto e último episódio de Tales From The Borderlands, a Telltale mostra que os gêneros podem sim se misturar ao contar uma boa história.

The Vault Of The Traveler foi pontuado por cenas emotivas de significados importantes para o desfecho da aventura de nossos protagonistas, deixando a montanha russa emocional que tivemos em Escape Plan Bravo praticamente esquecida, quando comparada à vastidão de sentimentos que o quinto episódio foi capaz de trazer.

Para quem não lembra, Rhys e Fiona são unidos pelo acaso, e com ideais e personalidades tão distintas, era difícil de imaginar que qualquer laço afetivo fosse estabelecido no último suspiro da série. A interação entre os dois existia para provocar risadas e desconforto, e em cada diálogo ácido, era difícil de escolher qual personagem ocuparia o posto de favorito na história.

Fiona e Rhys, sempre num “morde e assopra”...

Fiona e Rhys, sempre num “morde e assopra”…

Entretanto, conforme o roteiro de TFTB foi se modulando entre um episódio e outro, Rhys e Fiona estabeleceram uma relação passivo-agressiva que agrada o jogador, além de funcionar como um bom suporte para a narrativa serializada. Neste quinto episódio, conseguimos entender que a verdadeira história gira em torno da relação destes dois opostos e não de um vault perdido no meio deserto.

O jogo da uma lição sobre amizade e confiança em sua fórmula steampunk, mostrando que sua grande intensão sempre esteve presente, ainda que nas entrelinhas de socos e pontapés da aventura.

APEGO AO ELENCO

Se teve algo que Tales From The Borderlands conseguiu realizar com maestria, certamente foi a criação de tantos personagens carismáticos em sua história. Não apenas em sua construção inicial, mas também no desenvolvimento de cada um, criando camadas que pertenciam ao mesmo espaço, fazendo com que tudo funcionasse de forma fluida, sem tropeços pelo meio do caminho.

Em The Vault Of The Traveller, a preocupação com cada um dos membros do “elenco” fica bastante evidente. A esta altura do campeonato, não sabemos mais de quem gostar, detestar ou sentir compaixão. Handsome Jack passa de vilão à herói em uma troca de nuances muito sutil, para em seu desfecho voltar à posição inicial e enfim assumir o posto de vítima. Culpados? Aqui, todos são. Afinal, em Tales From The Borderlands, todos têm a ficha suja em algum lugar da galáxia.

Sabe quando você sente que se tornou próxima dos personagens de uma história, e que vai sentir falta deles? Então.

Sabe quando você sente que se tornou próxima dos personagens de uma história, e que vai sentir falta deles? Então.

Amados? Também. Em um episódio recheado de cenas marcantes (incluindo agradecimentos e despedidas), é notória a saudade que começamos a sentir de todos aqueles que ficarão para trás. Jack sendo desligado, LoaderBot encarando o sacrifício e Vallory sendo sugada pelo monstro do vault… Vilões ou heróis, todos que se foram deixaram sua marca como personagens que precisavam existir na história.

Gostaria que todos tivessem ficado, porque no fim, todos fizeram parte dessa história incrível, e também, ninguém espera quem em um jogo de gênero comédia, o adeus com alguns personagens irá de fato acontecer.

ESCOLHAS QUE REALMENTE IMPORTAM

O ano de 2015 foi recheado de dramas interativos, jogos de point–and–click inteiramente dedicados às escolhas do jogador. Vimos também que muitos destes títulos utilizaram as escolhas apenas como artifícios momentâneos, não influenciando de forma direta o desfecho de cada jornada.

Em seu último episódio, Tales From The Borderlands mostra que está longe de fazer parte desta pequena lista negra. Em diálogos rápidos e energéticos, fomos apresentados a decisões que precisavam ser tomadas em um curto espaço de tempo, decisões que, mais tarde, influenciaram o desfecho da série.

Telltale fazendo certo: criou um jogo onde escolhas importam e afetam seus personagens carismáticos.

Telltale fazendo certo: criou um jogo onde escolhas importam e afetam seus personagens carismáticos.

The Vault Of The Traveler trouxe uma nova ferramenta para os jogos da Telltale: a construção de sua própria squad. Com uma última batalha lançada em Pandora, Rhys e Fiona precisam recrutar um grupo de pessoas, pessoas tão dispostas quanto eles a enfrentarem o enorme monstro do vault. Entretanto, engana-se quem pensa que podemos escolher entre o mais fraco, mais forte ou mais inteligente.

Durante quatro episódios, personagens dos mais diversos tipos cruzaram com nossos protagonistas. E é aqui, neste exato ponto, que a sua escolha irá determinar qual deles aceitará ou não participar de sua missão suicida no futuro.

Z3r0, Athena ou Felix. Não importa quem você deseja ter em seu time. Se a sua atitude com cada um deles durante a história não agradou ou causou desconforto, a opção de escolha será vetada, e no final das contas, cada um deles realmente “irá lembrar” dos episódios passados.

SÓ ELOGIOS

Não só The Vault Of The Traveler finaliza a série de forma redonda, como o próprio Tales From The Borderlands surpreende com sua estrutura narrativa, mostrando que é possível produzir algo bem amarrado em sua forma serializada.

Em uma aventura repleta de questões e mistérios que precisavam de uma resolução, TFTB conseguiu entregar ao jogador todas as respostas necessárias para o fechamento da história, e ainda assim, consegue deixar a entender que podemos aguardar por uma segunda temporada.

Para mim, Tales From The Borderlands tornou-se título favorito entre todos os nomes de peso da Telltale Games, conseguindo superar a satisfação final que sentimos com a conclusão de The Wolf Among Us.

Adeus, Borderlands, e até a próxima. (espero!)

Adeus, Borderlands, e até a próxima. (espero!)

E assim encerramos mais uma série de jogos serializados aqui para o Metagene, torcendo para que Rhys e Fiona não demorem muito tempo para darem o ar da graça.

Telltale, nós iremos nos lembrar disso.