[ATENÇÃO: este post tem SPOILERS da série Sense8. Depois não diga que eu não avisei.]

Empatia é, segundo o dicionário Michaelis, o “estado de espírito no qual uma pessoa se identifica com outra, presumindo sentir o que esta está sentindo”. Como prática, um estado necessário para quebrar preconceitos, entender indivíduos e ter uma sociedade mais justa e interessante para todos.

Para atingir a empatia, é necessário que um sinta-se da mesma forma que o outro, o que implica em compreender as singularidades, semelhanças e diferenças entre ambos. É, de forma resumida, necessário projetar em si o outro.

A prática é muito difícil, pois vivemos realidades diferentes e temos em nós a complexidade de um universo. Como entender o que outras pessoas vivem, quando nossas vidas são tão distintas? Quem consegue entender a magnitude do próximo, quando até a nossa própria segue incompreendida em sua totalidade e em constante mutação?

Por sermos diferentes e complexos, é claro que, para se conseguir a empatia, é necessário imaginar. E é aí que a ficção entra – e, sendo mais específico, que Sense8 brilha.

A FICÇÃO QUASE AUTOBIOGRÁFICA DOS WACHOWSKI

Antes de desenvolver o tema, vou contar um pouco sobre Sense8:

A série, que estreiou na última sexta (05/06/2015) na Netflix, é dirigida por Andy e Lana Wachowski (famosos por suas participações na produção de V de Vingança e da série Matrix) e conta com 8 protagonistas principais, todos conectados por um poder que os permite criar uma imagem mental de si na cabeça dos demais ou receber os outros em sua mente, podendo ver o que os seus companheiros vêem, conversar uns com os outros e agir em posse do corpo do “visitado” (caso o dono do corpo permita isso).

Como é de se esperar da dupla Wachowski, a série apresenta elementos diferentes daquilo que vemos com frequência no mercado mainstream: apesar de ser ambientada no nosso mundo, o poder inusitado dos protagonistas faz com que possam pertencer a realidades diferentes sem necessariamente coexistirem fisicamente umas com as outras, tornando o universo de Sense8 rico em culturas e personagens diferentes sem sair do planeta Terra que nós conhecemos.

Nomi e Amanita, o casal mais fofo da série (minha opinião - dsclp, haters)

Nomi e Amanita, o casal mais fofo da série (minha opinião – dsclp, haters)

Outra característica da dupla presente na série é a existência de fortes críticas sociais que, discretas ou não, tornam-a mais real e relevante dentro e fora da tela. Nesse ponto, é fácil afirmar que a experiência de vida dos irmãos, especialmente a de Lana (que, pra quem não sabe, é transsexual), está presente no roteiro: antes de abandonar seu antigo nome (Larry), ela sofreu com depressão e se separou de sua antiga mulher durante as gravações dos filmes Matrix Reloaded e Matrix Revolutions. Pouco tempo depois, casou-se com outra mulher e realizou a mudança de sexo – o que influencia claramente a história da personagem Nomi (Jamie Clayton, atriz que, como sua personagem, é transsexual), namorada de Amanita (Freema Agyeman), que apesar de não ter sido idealizada por Lana, parece ter absorvido muito dela.

Não são só as questões sociais envolvendo Nomi que estão presentes na série, mas nesse ponto eu entro já, já.

A FICÇÃO COMO FILTRO DA REALIDADE

Faz pouco tempo que li um texto curioso do Bruno Passos no Papo de Homem em que ele dizia que “o estereótipo tem das suas, generaliza mas facilita o entendimento inicial”. O estereótipo que ele cita é a “imagem mental padronizada, tida coletivamente por um grupo, refletindo uma opinião demasiadamente simplificada, atitude afetiva ou juízo incriterioso a respeito de uma situação, acontecimento, pessoa, raça, classe ou grupo social” (Michaelis). Tal elemento é útil para que se possa imaginar, através de uma parte ou amostra, o todo de determinado objeto de discussão e, dessa forma, entender e lidar com ele da melhor maneira possível.

Por outro lado, é esse mesmo raciocínio que também nos leva ao preconceito. As associações que criamos nos fazem imaginar uma estrutura complexa de elementos. Para essas estruturas temos conjuntos de interpretações, ações e reações construídas por nossa cultura, que se tornam um tipo de pensamento coletivo. São esses conjuntos que, majoritariamente, fazem o homem ver a mulher como menos, o branco ver o negro como pobre, o local ver o estrangeiro como invasor e/ou como superior – e por aí vai. E é por essas construções – muitas vezes criadas e mantidas por tempo demais em um grupo – que os tais estereótipos, hoje, são mais nocivos do que benignos. São pensamentos tão enraizados que, para desconstruí-los, é necessário um esforço enorme para quebrar essas associações cotidianas (e muitas vezes automáticas) da nossa mente – e é aí que a ficção entra.

Ao adentrar em um mundo novo, autor e leitor se permitem quebrar regras. Vemos aliens coexistindo com humanos, criaturas fantásticas habitando a Terra em tempos medievais, pessoas “normais” recebendo grandes poderes e se tornando heróis/vilões  – e outras N formas de mudanças que aceitamos se a realidade proposta for minimamente semelhante à nossa.

Mas isso é bem mais antigo que Stan Lee, H.P. Lovecraft ou Lewis Carroll. Histórias assim existem desde o começo da sociedade humana, quando ainda eram religiões ou mitos. E, assim como os mitos, essas histórias servem para ensinar valores reais. Como os doze trabalhos de Hércules, que transmitem valores éticos; os pensamentos de Humpty-Dumpty sobre a arbitrariedade dos signos linguísticos; ou a metalinguagem de Planetary. Usam, desde sempre, personagens e situações com as quais nós nos identificamos de alguma forma para sugerir um raciocínio, o que normalmente é feito através uma ação ou de um pensamento dos protagonistas como representação de tal ideia.

E é fato que nos relacionamos com essas histórias, reais ou não. Isso porque o gênero de ficção muitas vezes inclui contos sobre pessoas, seus estados mentais e relacionamentos, o que nos permite entender a fundo as experiências narradas. Dr. Raymond Mar, psicólogo da Universidade de York (Canadá), afirmou, em um de seus artigos sobre como a exposição à ficção narrativa pode melhorar nossa capacidade de entender o que outras pessoas estão pensando ou sentindo, que nós nos conectamos às histórias que nos são contadas.  “Quando as pessoas lêem, elas invocam experiências pessoais. Nós interpretamos não apenas palavras em uma página, mas também as nossas próprias experiências passadas”, diz Mar. “Muitas vezes temos pensamentos e emoções que são consistentes com o que está acontecendo em uma história […] Mesmo que a ficção seja fabricada, ela pode comunicar verdades sobre a psicologia e as relações humanas”, completa.

“Então Sense8 é uma dessas histórias que usam o fantástico como metáfora pra vida, ou que mostram personagens que nos representam?”

Mais ou menos. Na verdade, ela é ainda mais direta na forma e na mensagem.

O VERDADEIRO PODER DE SENSE8

Com o aval de uma obra de ficção para quebrar a realidade, a série permite que, no nosso mundo atual, existam os sensates (que brinca com a palavra para sensato na língua inglesa), conjuntos de 8 pessoas conectadas entre si. Elas, que vivem em realidades completamente diferentes, são obrigadas a se ver com frequência nas cabeças uns dos outros. São obrigadas, por seu poder, a conviver e aceitar o diferente. E, com o tempo, evoluem ao aprenderem mais sobre seus companheiros, ao aceitarem suas fraquezas e reconhecerem as forças dos outros e, mais que tudo, ao confiarem/discutirem suas visões e problemas de vida a/com pessoas diferentes, o que permite que pensem de forma mais clara sobre o mundo e as ações que podem tomar para tornar suas vidas melhores.

Existe forma melhor de entender os traumas de Riley sem ser conversando com “sua mente” durante os fatos?

Existe forma melhor de entender os traumas de Riley sem ser conversando com “sua mente” durante os fatos?

E o círculo de personagens centrais da série não poderia ser mais adequado para ilustrar essas trocas: com personagens de perfis batidos (como o policial branco, hétero e americano que é o “Mr. Nice Guy”; o ator galã latino estilo Don Juan; a artista junkie; e por aí vai) mas com peculiaridades (o policial teve uma infância de crimes; o galã latino é gay mas finge ser hétero para o mundo; etc.), a mensagem de compreensão e troca fica clara a cada encontro entre os conectados, que passam a dividir o seu tempo compartilhado entre entender os outros e oferecerem suas qualidades e sua visão de mundo para os outros que precisam, sempre que necessário.

E claro que, além do perfil das personagens facilitar a compreensão do valor de cada troca entre esses indivíduos, ele também deixa bem explícitas as críticas contidas em cada uma delas: o preconceito sofrido pela personagem trans por seus pais, as dificuldades das pessoas com baixa renda para lidar com problemas de saúde graves como a AIDs, a preferência existente em algumas culturas por filhos homens, etc. É, para registro histórico, uma boa pintura do estado em que o mundo atual (infelizmente) se encontra.

EVOLUÇÃO É ACEITAR O DIFERENTE

Em um dos episódios da série, Nomi fala com sua sogra sobre os poderes que ela possui:

NOMI: A pergunta é: por que essas pessoas? Por que essas mentes? Por que não uma mente que parece mais sincronizada com a minha?

SOGRA: Talvez essa seja a questão.

N.: Como assim?

S.: Dou uma aula sobre Evolução todo semestre, e falamos sobre a máquina da evolução, que é a variedade. Para você ser mais do que aquilo que a evolução chama de “si mesma”, Você precisa de algo diferente de si mesma.

Assim como a personagem explica, para evoluírmos é necessária a variedade. Sem ela, servimos de base imutada para os outros, para as gerações futuras e para nós mesmos. Sem o diferente, bebemos da mesma fonte. Sem o diferente, temos apenas os nossos pontos de vista como base, o que pouco serve quando tentamos entender e lidar com outros que não vivem o que nós vivemos (ou seja: com qualquer pessoa que não “si mesma”).

Sense8 é um must see não apenas por seu enredo interessante e por seu conteúdo enquanto forma de entretenimento; é, muito acima disso, uma reflexão significativa sobre diferenças e um raro exercício de empatia.

ILUSTRAÇÃO:

KARINE GUERRA

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