Será que Forrest Gump correu demais?

A adaptação cinematográfica está bem diferente da obra original
por: 16 de Janeiro de 2017
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“Ué, quer dizer que o filme Forrest Gump foi baseado em um livro?” Pois é. Nem comecei o texto e você já deve estar com uma pontinha de remorso por não saber desse fato sobre o vencedor do Oscar de Melhor Filme de 1994. Te entendo. Mas sim: o Forrest Gump original habita as páginas do romance de Winston Groom, escrito em 1986. E correr não é só o que ele faz da vida. Nem ficar sentado num banco, contando suas histórias.

Tudo bem não saber dessas coisas todas. Afinal, o filme dirigido por Robert Zemeckis (De Volta para o Futuro, Náufrago) e estrelado por Tom Hanks, foi um sucesso de bilheteria tão grande que até a obra original se beneficiou desse fato. Antes do filme receber o maior prêmio da Academia, o livro tinha vendido apenas 30 mil cópias para, logo em seguida, se tornar um best seller internacional. Um mega sucesso de bilheteria que, naturalmente, engoliu sua verdadeira origem — para muitos de nós, pelo menos.

Eu mesmo sou daqueles fãs grudentos do longa-metragem. Comprei com o coração alegre a versão hollywoodiana dessa história (e que atire a primeira pedra quem não o fez). Para mim, tudo no filme se encaixava de forma bela e harmoniosa. Personagem principal, personagens secundários, boa história original, direção e filmagens incrivelmente bem-sucedidas e uma trilha sonora — criada por Alan Silvestri (De Volta Para o Futuro), e ela importa muito mais do que você possa imaginar — que você sempre ouve e ainda vai ouvir muito por aí. Em resumo, um filmão.

Se você não notou antes, ele foi feito exatamente com essa intenção de ficar com essa aparência perfeita dentro e fora das telas, cheia de beleza e bom senso, carregada de verdades e valores — mais especificamente, os valores de todo bom e verdadeiro americano e cidadão dos Estados Unidos da América.

Zemeckis e Silvestri já haviam trabalhado juntos em De Volta Para o Futuro (1985), repetindo o ótimo trabalho com Forrest Gump.

Mas preciso te contar uma outra verdade, uma que talvez lance uma pedrinha na cúpula de vidro que criamos ao redor desse filme querido: esse lance todo aí de “propaganda americana” e do “idiota inocente de coração bondoso” não tem absolutamente nada a ver com a história original de Winston Groom. Forrest Gump, o livro e o personagem, não são nada disso.

Ao contrário do que senti em outras adaptações, essa me deixou bastante incomodado. Mesmo seguindo no sentido inverso — vendo o filme primeiro para depois ler a obra de origem —, foi um choque e tanto. Rolou aquele característico EITA! em mais momento do que consigo lembrar agora. Isso porque não dá para chamar o roteiro adaptado de Eric Roth (que ganhou o Oscar por esse feito) de roteiro adaptado. É quase um roteiro original, tamanha a quantidade de alterações notáveis realizadas para criar a versão cinematográfica de Forrest Gump.

E, a medida que lia a obra de Winston Groom, me sentia decepcionado — quase ultrajado — por ter sido “enganado” por tanto tempo. Me imaginei no lugar de Groom por alguns (muitos) momentos e consegui sentir um pouquinho da revolta que ele sente até hoje com o que foi feito da sua criação.

Eu sempre costumo ser positivo quanto a adaptações. Isso porque falamos de mídias diferentes, cujas possibilidades e limites também são bastante distintos. Contudo, eu não me lembro de ter visto algo semelhante ao que foi feito com a história de Groom: livro e filme são coisas completamente diferentes. Com exceção dos personagens centrais presentes em ambos os conteúdos — Forrest, Bubba, Jenny, Sargento Dan —, e de alguns fatos e episódios vividos por eles — a Guerra do Vietnã, os protestos civis contra a Guerra em que Jenny e Forrest se envolvem, a habilidade de Forrest com o ping-pong, o sucesso com o negócio de camarão —, quase todo o resto é diferente.

Uma das poucas mudanças que fez sentido: o Bubba das telas é negro, adicionando um pouco de representatividade ao filme.

A mudança mais drástica ocorre no próprio Forrest, que na literatura é descrito como um caso raro de idiot savant, mas que no cinema é apenas um idiota (no sentido técnico do termo) de boa índole. Enquanto no filme Forrest vive aventuras graças a forma simples e intrinsecamente boa de ser e compreender o mundo à sua volta, nos livros Forrest entende perfeitamente o que está acontecendo consigo mas faz pouco para evitar que os outros controlem sua vida, culpando sua deficiência — e algumas vezes tirando proveito dela — pelas coisas que lhe acontecem. Quase nada idiota. A pena levada pelo vento só serve mesmo para descrever o Forrest do filme.

Partindo destas e de outras desigualdades na construção do protagonista da narrativa, as motivações, as ideias, e até o caráter de todos os outros personagens também é alterado. E consequentemente, as situações vividas por todos eles também mudam, já que pessoas diferentes não podem viver as mesmas histórias de forma igual.

Sem entrar em detalhes, é possível resumir todas as diferenças entre romance e filme de uma forma bastante simples, com uma ideia que comecei lá em cima: o livro não tem pretensão de nos ensinar nenhuma lição ou transmitir nenhum tipo de mensagem sobre valores e virtudes. É só uma narrativa bastante curiosa porque se desenrola sob o ponto de vista de um personagem inusitado. Para não dizer que ele é só isso, Groom utiliza a vida de seu personagem tolo para criticar sutilmente as instituições e o american way of life.

Entretanto, a versão cinematográfica é mais ousada e ambiciosa, e sem dúvidas menos crítica. Aproveitando-se do conjunto básico de características físicas e psicológicas de Forrest Gump — insólito em si mesmo —, Zemeckis e Roth direcionaram personagens e narrativa de forma a conquistar o público não apenas pela originalidade de seu protagonista mas pela quantidade de bons valores que ele personifica. Hollywood sempre vendendo o bom e velho jeito americano de viver.

Um dos episódios mais críticos do filme foi transformado em um momento cômico. Afinal, a guerra é ou não “um monte de merda”?

Mesmo depois de todo esse choque com a verdadeira identidade de Forrest Gump, não consigo não me impressionar com o longa. Ele continua lindo, e este é um ponto sem discussão.
Apesar de não ser a intenção do criador da história inicial, a mensagem do filme é tão verdadeira — mesmo beirando a uma utopia —, e a forma com que ela é transmitida é tão profunda e bem executada — ver Tom Hanks apertando a mão de John F. Kennedy foi fantástico para os padrões dos anos 90 —, que você se sente inspirado após assisti-lo, desejando um mundo com mais

Forrests: pessoas gentis, inocentes, desapegadas de valores materiais e preocupadas em ajudar na simplicidade de suas capacidades. Lindo até o fim dos tempos.

De Kennedy a Lennon, Forrest aparece em cenas clássicas da história. Uma das coisas mais legais da versão cinematográfica de Forrest Gump.

Minha reação de amor pleno com o longa mudou depois ler a nova edição de 30 anos de Forrest Gump. Ela ficou mais complexa, cheia de poréns e considerações. Se você deseja manter o filme de 94 imaculado em sua biblioteca mental, talvez a leitura vá lhe trazer muitas decepções. Mas se você ficou interessado e quer entender como é possível amar e odiar Forrest Gump, tá aí uma boa forma para você iniciar seu 2017.

  • Luciana Fracchetta

    Ótimo texto! Expressou muito bem a reação que eu tive quando me deparei com a obra do Groom.

    • Henrique Teixeira

      E o mais legal é que dá pra você gostar igual das duas obras! 🙂 Obrigado Luciana!