Depois do belíssimo e caliente Guacamelee!, a desenvolvedora Drinkbox decidiu atualizar seu portifólio com um jogo mais denso, com um visual pesado e uma história macabra e original. Daí, nasceu Severed, jogo para as plataformas 3DS, PS VITA e Wii U.

A escolha desses consoles, ainda mais para um jogo indie, pode causar estranheza, mas para o jogo faz total sentido: é praticamente um Fruit Ninja com trama e objetivos.

O game te joga sem nenhum preparo em um mundo completamente macabro e destruído, bem na vibe Mundo Invertido de Stranger Things. Nele, você é Sasha, uma menina que levava uma vida tranquila com sua família quando monstros apareceram e destruíram tudo, matando seus pais, seu irmão e lhe tirando um braço. Devastada (tanto fisicamente como psicologicamente), Sasha precisa recuperar os corpos dos seus familiares que foram levados pelos demônios.

Para quem já jogou dungeon crawlers como Etrian Odyssey, Severed não será novidade. O sistema de navegação e exploração é exatamente o mesmo do game japonês da Atlus, no qual você enxerga os ambientes em primeira pessoa, e vai explorando e revelando novas partes do mapa a cada sala que você entra. Entre um corredor e outro, monstros aparecerem para batalhar, e está aí um dos diferenciais do game: o modo de luta.

Ao iniciar uma luta, a touchscreen é ativada e você pode literalmente cortar os inimigos, igualzinho Fruit Ninja. Porém, cada monstro tem um ângulo certo para ser atingido, e ele fica alternando de tempos em tempos — o que torna a tarefa bem difícil. Além disso, muitas vezes a batalha inicia com 2 ou 3 monstros, cada um de um lado, te forçando a ficar de olho nos ataques de cada um deles.

Esses mecanismos de exploração e batalha são bem divertidos no começo, e o ritmo de jogo sem nenhuma trilha sonora e visual bizarro tornam a experiência bem imersiva e interessante. Mas depois de algum tempo jogando, tudo fica enjoativo. Muitas batalhas seguidas com o mesmo estilo de monstros, mapas intermináveis e um rápido sistema de leveling e power-ups faz parecer que você está ficando mais forte, quando na verdade não sai do lugar. Quando você vence um monstro com vários hits, é possível cortar os membros dele, que desbloqueiam mais upgrades de força, HP e acertos críticos. Essas melhorias ajudam seu personagem até demais: com elas, as batalhas se tornam muito mais fáceis do que deveriam, afetando a curva de dificuldade do jogo. Ou seja: o game, que era para se mostrar cada vez mais desafiador e testar mais e mais o jogador, acaba se mantendo simples e sem dificuldades graças aos itens adquiridos.

Cortando seu caminho pelos labirintos. Literalmente.

Cortando seu caminho pelos labirintos. Literalmente.

Talvez esses problemas fossem resolvidos se o game se preocupasse em contar um pouco mais da protagonista e do que aconteceu logo de início. Claro, um dos charmes é a ambientação cheia de mistérios que te deixa um pouco apreensivo em andar sozinho nesse universo cheio de monstros devoradores de humanos. Mas esse encanto meio que se perde quando você entra no piloto automático de “anda, anda, mata monstro, anda, anda, aperta alavanca, anda, anda”. Óbvio que fatiar um monte de monstros é uma delícia quando você pega a prática, mas chega um momento em que você já não aguenta mais os encontros aleatórios a la JRPGs.

Severed poderia ser um game tão grandioso quanto Guacamelee!, mas escolher plataformas portáteis teve seu preço. O resultado foi um produto com ótimas escolhas tanto no plot como na arte, mas que peca por ser curto e por não conseguir manter o jogador ligado e ativo.