Sharp Objects, a nova minissérie da HBO, concluiu a sua temporada de oito episódios no final da semana passada e trouxe uma das experiências mais interessantes já vistas na televisão recente. Trata-se de uma produção que surpreende de cara pelos nomes envolvidos: protagonizada por Amy Adams, dirigida por Jean-Marc Vallée (Big Little Lies), criada por Marti Noxon (Dietland) e baseada em um livro de Gillian Flynn (Garota Exemplar). O resultado, sem surpresas, é uma minissérie fantástica que faz um excelente estudo psicológico de seus personagens através de uma história intrigante e capaz de causar as mais diversas emoções no espectador.

Mesmo com as altas expectativas e meus instintos já me alertando que as chances de gostar da série eram altas, Sharp Objects (Objetos Cortantes, no Brasil) conseguiu, ainda assim, ser uma bela surpresa. A história acompanha Camille Preaker, uma jornalista que é mandada de volta pelo seu chefe à sua pequena cidade natal de Wind Gap, Missouri, para cobrir o assassinato de duas adolescentes. Com essa sinopse, a série poderia facilmente cair no clichê de “homicídio em uma cidade pequena” mas, felizmente, a história vai muito além disso. O homicídio pode ser o contexto para dar o pontapé e fazer a história avançar, mas o que realmente importa está mesmo nas entrelinhas — e é aí que ela começa a revelar ser bem mais do que apenas uma produção com grandes nomes envolvidos.

O mistério é bom, mas não é a melhor parte da experiência.

Isso não quer dizer, é claro, que o mistério central não é interessante. Ele é, bastante. A questão é que, após alguns episódios, é fácil perceber que o que realmente faz essa história ser especial está mesmo nos pormenores — e a própria série sabe muito bem disso e se preocupa em preparar o terreno com bastante cuidado. Os primeiros episódios tem um ritmo mais vagaroso, mais cuidadoso e com pouca ação: a prioridade aqui é mais o desenvolvimento da ambientação e menos do suspense. É necessário realmente entender a cidade de Wind Gap e seus habitantes antes de mergulhar em um cenário mais amplo.

Outro ponto que também vale ser levantado é que Camille não é uma protagonista como todas as outras, o que já deixa tudo um pouco mais interessante. Ela é (de maneira nada romantizada, vale elencar) uma alcoólatra destruída emocionalmente, de personalidade cínica e apática, uma personagem que poderia facilmente cair na antipatia do público se não estivesse nas mãos de uma atriz tão competente como a Amy Adams, que faz a performance de sua carreira (mais sobre isso depois). No entanto, apesar de acompanharmos Sharp Objects primariamente pelos olhos de Camille, essa é também uma história sobre outras duas mulheres de sua vida: sua mãe Adora (Patricia Clarkson) e sua meia-irmã Amma (Eliza Scanlen).

Gillian Flynn, em um painel sobre a série, comentou que a intenção com essa obra era escrever sobre “o lado obscuro da psicologia feminina” e aqui ela cumpre essa tarefa com bastante sucesso. As três mulheres da família Preaker são complicadas, complexas, e cada uma precisa viver e lidar diariamente com os seus próprios traumas causados, principalmente, pelo ambiente em que vivem e pelas pessoas que convivem — inclusive elas mesmas. É um jogo intrínseco de poder e submissão entre essas mulheres que resulta em relações complicadas, que são o verdadeiro ponto alto da história. É realmente delicioso ver os embates verbais (e não-verbais) entre essas personagens.

Amy Adams atua deslumbrantemente em seu primeiro papel para a televisão.

E por ser uma história com personagens tão difíceis, o resultado poderia facilmente desmoronar se não fosse pela força do elenco. A personagem de Amy Adams é interpretada de forma impecável e a atriz mostra, além de enorme versatilidade dramática, um tato incrível ao lidar de forma tão verdadeira com alguém tão danificada emocionalmente, mas o apoio bem sucedido das outras duas protagonistas, interpretadas por Patricia Clarkson e Eliza Scanlen, não podem passar sem os seus devidos elogios — porque é entre essas três mulheres que as engrenagens rodam e um elo fraco poderia diminuir a efetividade de tudo, colocando tudo a perder.

Felizmente, o que realmente acontece é a audiência sendo presenteada com algumas das melhores interpretações já vistas na televisão esse ano. Além das já citadas brilhantes protagonistas, o elenco de apoio também conta com nomes como Chris Messina (figurinha carimbada da HBO e sempre muito carismático), que transmite com eficácia para a tela o desconforto e a curiosidade de seu personagem, um detetive “forasteiro” de Kansas City que vai a Wind Gap investigar o mistério, Elizabeth Perkins, que traz profundidade a uma personagem que poderia ser apenas um clichê de “fofoqueira divertida da cidade”, Will Chase na pele de um pai em sofrimento e vários outros nomes que ajudam a compor um time de bastante talento que só enaltece os ótimos roteiros.

Wind Gap é hipnótica e misteriosa, onde cada detalhe importa.

É preciso dar o seu devido mérito à edição da série também. É, na minha opinião, uma das melhores edições dos últimos tempos (que valeria um artigo por si só!) e isso ajuda cada episódio a ser ainda mais especial. A condução da história por meio da edição é feita de maneira brilhante e sutilmente dinâmica, respeitando o ritmo um pouco menos acalorado da história mas sem torná-la tediosa. É elegante e astuta, onde nada é mostrado por acaso e tudo se encaixa, cedo ou tarde. É uma verdadeira obra de arte que consegue fazer o espectador realmente sentir e se envolver com o que se passa na tela.

No mais, é difícil comentar mais profundamente sobre Sharp Objects sem spoilers ou sem revelar certos pontos-chave da trama. É uma história que vale, na minha opinião, mergulhar sem saber muito sobre, visto que parte da beleza da jornada está em ir descobrindo os segredos e intimidades dos personagens no desenrolar da narrativa. Portanto, se me permitem um apelo: assistam sem saber muita coisa, que vai transformar uma excelente experiência em algo ainda melhor.

Sharp Objects definitivamente não é uma série para todo mundo e pode causar opiniões polarizadas, principalmente pelo seu ritmo inicial um pouco mais lento, mas é uma obra incrível e que definitivamente deveria receber mais atenção. É um ótimo mistério e um delicioso e interessantíssimo jogo de gato e rato onde você não sabe exatamente quem é o que, devido aos seus personagens complexos e imprevisíveis e um ambiente onde nada é o que parece. Com apenas oito episódios, a HBO conseguiu mais uma vez proporcionar uma experiência excepcional com um elenco, direção, roteiro e produção forte e de qualidade, causando um resultado extremamente recompensador.