Sei que já faz bastante tempo desde a primeira postagem que fizemos aqui no Metagene sobre as simbologias de Sons Of Anarchy. Entretanto, mesmo com o fim da série há meses atrás e um post que poderia ter caído no esquecimento, os fãs do SAMCRO continuaram curiosos com o que poderia vir em nossa prometida continuação. Afinal de contas, quem aqui não terminou a série tentando entender todos aqueles detalhes que pareciam não fazer sentido?

Sons of Anarchy veio ao mundo televisivo tão cheia de easter eggs que assunto é o que não falta dentro desse fandom. Como já havíamos dito no post anterior, Kurt Sutter não da ponto sem nó em suas obras. Segundo o autor (produtor, criador, roteirista, ator e provavelmente deus mitológico também), todas as pontuações entregues pela série tem a sua função narrativa dentro da história.

Agora, iremos divagar sobre alguns dos (muitos) detalhes que passavam batido entre um episódio ou outro, além dos elementos que pareciam servir apenas como composição visual para as cenas, quando na verdade estavam ali, dando informações e dicas sobre o futuro de Charming.

É hora de tirar os mantos de couro do armário e iniciar uma nova viagem. Preparados?

ATENÇÃO: Spoilers!

OS TÍTULOS DOS EPISÓDIOS

Título de episódio, em geral (e isso independente da série em questão), é provavelmente o elemento mais ignorado em narrativas televisivas. A maioria das séries americanas não exibe o título de cada um de seus episódios após a abertura, e na minha cabeça, nenhuma outra série faz isso além de Supernatural.

Com Sons of Anarchy não foi diferente. Sem títulos em sua abertura e com as informações de cada um deles presente no IMDB, é possível afirmar que só os mais fervorosos fanboys acompanhavam as publicações semanas antes da transmissão do FX.

Acontece que nada criado por Kurt Sutter existe por acaso. Para o autor, o valor narrativo do título de cada um dos episódios era tão importante quanto o roteiro corrido de cada um deles. Cada título teve sua representação narrativa dentro da série em sua totalidade, e se formos analisar com calma, tudo vai fazer bastante sentido.

Na quarta temporada existem dois episódios finais que são divididos em atos, ambos registrados no IMDB como “To Be”. Lembram do que falamos no post anterior sobre Hamlet? Fora isso, podemos citar títulos em espanhol como “Los Fantasmas”, em francês como “J’ai Obtenu Cette” (algo tipo “eu obtive isso”, brincando com o termo inglês “I got this”) e até mesmo passagens da Bíblia como “John 8:32” (João 8:32 – “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”). Segundo Sutter, todos os títulos tiveram sua função narrativa dentro de Sons Of Anarchy. Prova maior do que o último episódio da sexta temporada,“A Mother’s Work”, não existe.

A COR BRANCA

Não é novidade dizer aqui que, ao longo dos anos, o audiovisual encontrou recursos interessantes em paletas de cores para contar uma história. A quebra de cores, normalmente utilizada em sua fotografia, costuma representar a dualidade do personagem principal, ou então dividir a existência de dois universos dentro de uma mesma história. Em Sons of Anarchy o recurso da paleta de cores existe, mas pontuado em objetos de cena.

Jax Teller, personagem principal de SoA, começa sua jornada como um rapaz de vinte e poucos anos, quase inocente, passando a questionar o ambiente em que cresceu, sua família e a cidade que chama de lar. Enquanto o personagem se constrói ao longo dos anos, conseguimos ver os dois lados da mesma face. Jax vive a dualidade.

Um dos principais itens da vestimenta de Jax são os tênis de cor branca que estão sempre muito limpos. Lembro que logo no início não entendia a funcionalidade visual daquilo – até porque motoqueiros usam biker boots e não sapatos brancos, certo?

Entretanto, no funeral de Donna, temos a primeira cena de verdadeiro simbolismo entre as cores utilizadas na série. Jax, após adormecer no cemitério junto à lápide de seu pai, acorda sem o colete e vestindo uma camiseta branca. A cena continua, e logo vemos que, de todo o motoclube, Teller é o único membro que não está usando preto. Já no final do mesmo episódio, o colete reaparece nas mãos de Tara, e como quem aceita o iminente caminho da escuridão, o personagem veste o colete, tornando-se de forma definitiva mais um dos muitos que seguiram pelo mesmo caminho.

Todos de preto, Jax de branco.

Todos de preto, Jax de branco.

Voltando ao par de tênis: em sete temporadas os sapatos de Jax nunca apresentaram marcas de sujeira, e é exatamente no último episódio que Kurt Sutter nos entrega mais uma cena de grande significado. Se o branco representa o lado não corrompido de Jax, o assassinato da própria mãe encerra este pensamento. Com o tênis em cena e o sangue respingado, sabemos que aquela mancha jamais sairá do couro branco até então intacto.

A mancha de sangue nos pés de Jax após o assassinato de sua própria mãe.

A mancha de sangue nos pés de Jax após o assassinato de sua própria mãe.

Assim, Teller abandona o antigo par de tênis brancos e assume, pela primeira vez em 92 episódios, um par de botas pretas que nunca vimos antes.

Jax aceita o aquilo que o destino tem reservado para ele, aceita também que a escuridão já é muito maior do que a luz em sua vida, e quando parte para a morte, está coberto de roupas pretas dos pés a cabeça.

A MENDIGA

Um dos maiores pontos de interrogação de toda a série, a mendiga nasceu como um elemento de extremos. Enquanto parte dos fãs acreditavam que sua existência pudesse significar tudo para a série, a outra parte entendia sua aparição como uma enorme perda de tempo.

Confesso que até hoje a personagem da mendiga ainda não está 100% esclarecida em minha cabeça. Até porque Sutter não se manifestou a respeito e disse que em algum momento futuro poderia (ou não!) revelar o que ela representa.

O primeiro encontro de Jax com a mendiga.

O primeiro encontro de Jax com a mendiga.

Bruxa, fantasma, shapeshifter ou a própria morte encarnada… Todas essas teorias existem e nenhuma delas explica de fato coisa alguma. Entretanto, é de consenso geral que sua aparição funciona como o elemento sobrenatural da série.

Para quem não lembra, a figura da mendiga aparece em momentos muito pontuais, sempre antes ou depois de alguma morte significativa para a história. Além disso, é ela quem interage com Jax no último episódio dizendo que “a hora chegou”, e oferecendo pão e vinho ao protagonista da história pouco antes dele morrer.

A SANTA CEIA

Na cultura católica, o pão e o vinho representam o corpo e o sangue de Cristo, que se sacrifica pensando naqueles que um dia poderão viver dias melhores.

Em Sons Of Anarchy a história não é diferente. Com um grupo de discípulos escolhidos em sete temporadas, Jax se despede de todos antes de partir, deixando os poucos que ainda vivem com seu legado em mãos, para que possam contar sua história para aqueles que ainda virão.

Teller carrega também todos os pecados cometidos pelo clube, assim como a culpa pela morte de sua mulher, família e amigos. Pensando em tudo isso e em seus dois filhos, decide que o melhor a fazer é se entregar para a morte, mandando as duas crianças para longe de Charming, para que o recomeço aconteça de forma pacífica e longe do caos da cidade.

Além de todas as analogias citadas, a cena do suicídio de Teller mostra o personagem de braços abertos, trazendo a representação da cruz para a narrativa da história. Ao chocar-se contra o caminhão, enquanto seu sangue se espalha pelo asfalto, dois corvos comendo pão aparecem em tela, dando espaço para que o motorista grite “Jesus!” no momento do acidente.

A morte de Jax faz alusão ao sacrifício de Jesus Cristo.

A morte de Jax faz alusão ao sacrifício de Jesus Cristo.


E assim termina a série de dois posts sobre a simbologia de Sons of Anarchy, analisando os easter eggs escritos por Kurt Sutter em uma obra que já deixa saudades.

Enquanto uma prequel ou uma sequel não são oficialmente anunciadas, o jeito é fazer uma maratona desde o início, dessa vez com essas informações frescas na cabeça e olhos mais atentos a detalhes que sempre passam batidos.

Até a próxima!