Sobre o que Ocarina of Time significa pra mim

Minha relação especial com o Zelda favorito de muita gente
por: 29 de Março de 2017
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Toda pessoa que gosta de vídeogame tem um jogo favorito. Tenho um amigo que não larga o controle quando pega um King of Fighters (oi, Állan). Outro que não consegue terminar o dia sem uma partidinha de LoL, e outra amiga que joga mais Overwatch do que bebe água. A minha mãe também tem um favorito (é Mario Kart, caso estejam se perguntando — e ela é muito ruim). Já o meu é a franquia que conta a lenda de uma sábia princesa de orelhas pontudas e de um corajoso herói de gorro verde que lutam contra o poderoso vilão que quer dominar o reino de Hyrule.

Minha história com Zelda começou quando tinha uns 7 anos, lá por 1995. Naquela época, as crianças viviam o auge do Super Nintendo no Brasil, e eu era um dos poucos que não tinha um console da Big N pra chamar de meu. E, pra falar a verdade, nem precisava. Afinal, todo santo dia após aula, a galerinha do barulho que aprontava altas confusões se juntava na casa de alguém pra jogar o dia inteiro.

Até que, um dia, na casa de um dos meus amigos, comecei a fuçar o monte  de cartuchos empilhados ao lado da pequena TV de tubo e achei The Legend of Zelda: A Link to The Past. Eu o coloquei no console e, depois de algumas assopradas, tive o meu primeiro contato com um jogo da série, e… foi uma bosta.

Pois é, não rolou amor à primeira vista. Naquela época, meus amigos e eu estávamos na hype por jogos mais simples que funcionavam em grupo, como Mortal Kombat, Street Fighter e International Superstar Soccer. Games como Zelda exigem concentração, e só mais tarde aprendi que ele não era um título para se jogar com muitas pessoas.

E os anos passaram, o auge do SNES se foi, e a nova geração de consoles chegou. Ganhei um Nintendo 64 de presente de aniversário do meu avô. Lembram do vídeo que viralizou do menino SURTANDO ao descobrir que ganhou o console? Esse menino me representa:

Meu primeiro ano de console foi excelente graças a títulos como Super Mario 64, Mario Kart 64, Star Fox 64, GoldenEye 007… Mas foi em 1998 que tudo mudou. Mesmo após tantos anos, lembro como se fosse hoje: estava no quarto com meu avô, minha avó e minha mãe, brincando com um boneco do Homem-Aranha (que guardo até hoje) enquanto os adultos assistiam Torre de Babela.k.a. a novela que me fez ter medo de pisar em um shopping por um bom tempo. Durante seu intervalo, uma música de acordes épicos me chamou atenção, e quando olhei para a TV fiquei enfeitiçado pelo trailer que passava.

Nunca havia visto nada igual. O comercial tinha 30 segundos de duração, mas com uns 10 eu já havia puxado minha mãe pela blusa sem desgrudar os olhos da TV para pedir o game de Natal. Para a minha surpresa, o logo de The Legend of Zelda surgiu no final, revelando que o novo título da série, o primeiro em 3D, se chamaria Ocarina of Time. Fiquei tão alucinado que me plantei em frente à TV nos dias seguintes esperando pelo comercial. Após perdê-lo duas vezes seguidas enquanto estava na escola, meu avô conseguiu gravá-lo em VHS para que eu assistisse quando e quantas vezes quisesse. (Melhor avô: sim ou sim? #ChupaTVaberta)

Depois de alguns meses de espera, finalmente chegou o Natal de 1998 e, junto à data, o meu tão sonhado cartucho de OoT — que veio em uma caixa dourada gigante, guia de jogo cheio de ilustrações e manual em Pt-Br. Foi nesse momento que me apaixonei por Zelda. Eu não estava mais no meio de uma bagunça com os amigos querendo um jogo simples. Estava sozinho em um mundo de fantasia diferente de tudo o que havia experienciado com games até aquele momento.

Não vou me alongar nesse texto e explicar o quanto esse jogo é maravilhoso. Ocarina of Time é, de fato, um dos melhores e mais importantes jogos de todos os tempos. Foi ele que me mostrou a importância de uma boa história em um game, e foi com ele que comecei a aprender a escrever e falar inglês por conta própria. No entanto, mais do que isso, OoT me ajudou a superar um dos momentos mais difíceis da minha vida.

Acontece que meu avô havia sofrido um derrame no mesmo período, e estava num processo de recuperação complicado. Como eu era muito pequeno para ficar sozinho em casa e ele estava muito instável para ficar sem cuidados, fazíamos companhia um para o outro. Depois daquele Natal, ganhamos também a companhia de Link. E assim seguiu por alguns meses. Sim, eu disse meses.

Vejam só: pros padrões daquela época, o mapa de OoT era enorme, e sem a internet, dependíamos das revistas especializadas mensais — como a Nintendo World — para saber o que podia ou não podia ser feito dentro de um jogo. Como a maioria das pessoas não gostavam de esperar, nós tentávamos. E isso era muito divertido. Hoje bastam dois cliques para descobrir se um rumor sobre um determinado game é ou não verdadeiro. No entanto, antigamente era só na base da tentativa e erro. Afinal, dá pra pegar a Triforce? A coruja pode me levar pra uma área secreta? É possível entrar no castelo de Hyrule? Só tentando. E eu tentei. Tentei pra caralho. E meu avô viu essas tentativas.

Minha versão redonda com o seu Orlando há quase 20 anos.

“Esse menino só corre, não cansa não?”. Ele me perguntava todo dia, e todo dia eu dava risada do jeito dele. “Por que o gorro dele não cai da cabeça? Você se jogou de um penhasco!” ele gritou quando me joguei da Death Mountain.

Três meses depois, no mesmo dia do aniversário do meu tio, meu avô sofreu o segundo derrame e não resistiu. Não é exagero algum dizer que o meu mundo desabou. Contudo, eu era criança demais para entender o que estava acontecendo, e demorou um pouco para cair a ficha.

As semanas seguintes foram insuportáveis. Não tinha vontade de fazer absolutamente nada e ninguém conseguia me animar. Por mais que as pessoas quisessem me ajudar — e que eu seja grato por isso até hoje —, era sufocante ter que retribuir o sorriso de compaixão dos outros e dizer que estava bem quando claramente não estava. Mergulhei num mundo próprio que fazia a decoração do castelo do Ganondorf parecer radiante.

Falando no castelo do vilão, foi exatamente nesse ponto que havia parado na última vez que joguei antes disso tudo acontecer. Até que, um dia, do nada, senti vontade de jogar. Sai do castelo, toquei a Epona’s Song para chamar minha fiel montaria e passei horas cavalgando pelo campo de Hyrule. Foi nesse momento que, após tantos dias, finalmente consegui ter um pouco de paz e vontade de fazer algo.

Decidi zerar o jogo, e assim o fiz: resolvi os puzzles que dão acesso à torre central, subi a porra toda enfrentando os inimigos, derrotei Ganondorf, fugi correndo com a Zelda do castelo desabando e sentei a porrada na versão bestial do vilão.

Quando os créditos começaram a rolar, rolaram também as lágrimas. Foi a primeira vez que chorei depois do que aconteceu, e ali eu entendi que havia perdido uma das pessoas mais importantes da minha vida, que foi e é até hoje um exemplo que sigo.

É por isso que Zelda é mais do que um jogo pra mim. Ele sempre será um elo com o meu passado e um gatilho para lembrar dos últimos momentos que passei com o meu avô. Hoje, data da publicação, faz exatamente 18 anos que isso aconteceu. Então, se me dão licença, preciso instalar meu Nintendo 64  para reencontrar meu velho amigo.