Sobre o tal vazio de “A Vigilante do Amanhã”

Reflexões sobre a recente versão hollywoodiana (e pobre) de Ghost in the Shell
por: 12 de Maio de 2017
0 Flares Facebook 0 Twitter 0 0 Flares ×

Eu sei. Faz um tempo considerável que A Vigilante do Amanhã saiu nos cinemas. Para os padrões da internet, estou atrasado. Você já leu de tudo sobre isso, provavelmente. — inclusive, já deve ter visto alguém dizendo que o filme é “uma casca vazia”, como eu sugeri no título. EU SEI. Mas sinto que, se não falar da (porcaria da) versão hollywoodiana do clássico Ghost in the Shell e dessas adaptações mal orientadas, não vou conseguir ficar em paz.

Eu não sei se deixei claro o suficiente até aqui, mas A Vigilante do Amanhã é um lixo. Imagino que minha opinião sobre ele já deve estar clara, mas não custa repetir com todas as letras. L-I-X-O.

Apesar de, num geral, eu pensar que a gente deve pegar leve em comparações entre o original e a adaptação, nesse caso é daqui que a discussão tem que partir.

A meu ver, uma adaptação que mantém o nome da obra original tem praticamente apenas três motivos para existir: ou porque a nova versão acrescenta algo de novo; ou porque ela vai levar o material original para um outro público, para uma audiência maior; ou talvez para arrumar as falhas, quando for o caso. Já nesse filme, o motivo é outro: tentar emplacar um blockbusterzinho cheio de efeitos e com uma história “mais do de sempre” pro público geral, principalmente nos mercados internacionais.

Funciona? Em muitos casos, infelizmente, sim. Principalmente se a métrica de sucesso aqui for ingressos vendidos. Mas, quando se trata de adaptar um clássico, só isso não basta. Tem que haver paixão, interesse em desenvolver uma história boa, e também respeito com a obra original e com seu mercado de origem.

Por quê? Vamos por partes.

Alô, Hollywood: dava pra fazer muito mais dinheiro copiando mais do que uma cena ou outra da animação, viu?

Pra começo de papo, porque os trabalhos de Masamune Shirow e de Mamoru Oshii (falando do mangá de 89 e do filme de 95, respectivamente) e seus fãs merecem. O primeiro filme da franquia é considerado per se um marco do cinema e da ficção científica. Não à toa, já que sua estética e suas cenas de ação, bem como as reflexões trazidas pelo filme sobre o ser humano, nossa sociedade e a tecnologia, se mantém atuais e incríveis mais de 20 anos depois de seu lançamento.

Também porque dá. Se a cacetada de adaptações de Ghost in the Shell (mais de dez obras, somando mangás, filmes e séries em anime, além de alguns jogos) podem nos garantir algo, é isso. Até porque todas parecem já ter explorado, de certa forma, os caminhos plausíveis para adaptações que citei acima. A obra original (o mangá de 89), tem em si quase um livro de notas de rodapé, de tão carregado de material de worldbuilding que é. O filme de 95 é uma das animações mais filosóficas e cabeçudas já feitas. E se você procura algo mais fácil de digerir e focado no entretenimento, Arise tá aí pra isso. Tem até pra quem quer algo realmente leve e focado no humor. Se você não acredita, pode procurar aí por Tachikomatic Days.

Como se não bastassem todas as adaptações pertencentes à franquia explorando esse universo de tantas formas, existe também a vasta lista de produções que se inspiraram em GitS. Reza a lenda, inclusive, que a apresentação de venda da franquia Matrix teve as Wachowski mostrando o filme de Mamoru Oshii aos produtores e executivos, dizendo que queriam fazer aquilo em live-action, pontuando as diferenças. Isso só pra citar uma, porque daria pra falar de várias; até James Cameron já disse ter levado algumas lições do clássico otaku para sua franquia Avatar. E de novo: é inegável que muitas dessas obras conseguiram levar a essência de GitS para outros públicos, e até tentando se aprofundar em algumas de suas questões — e boa parte delas provam, por seu sucesso em bilheteria e aceitação do público, que deram certo.

O último e não menos importante: porque adaptar direito algo que é bom aparentemente dá muito certo. Isso é algo que, pelo jeito, a Disney entendeu muito bem. Isso fica bem claro tanto em seus filmes Marvel, quanto na leva de histórias clássicas de princesas sendo transportadas para o live-action. Parece que a Disney entende a mentalidade do público original e potencial para cada um de seus lançamentos e universos, e sabe o que preservar e o que mudar em cada obra.

Apesar de ter minhas ressalvas, o que fizeram com Guerra Civil foi, num geral, incrível. A preocupação que deus e o mundo tinham com a proporção da batalha se desfez sem muito esforço. Entenderam que, para o MCU, não importava muito ter um monte de heróis, vilões e micro acontecimentos acontecendo. O que o povo queria era ver aqueles personagens que já existiam nesse universo se digladiando, e trazendo algumas camadas novas para aquele universo. E parece que isso agradou boa parte dos público mais viciado em quadrinhos, também.

A Bela e A Fera? Assumiram as características feministas já percebidas na obra original, mantiveram o grosso dos personagens e da característica musical da história, e muita gente gostou do que viu. Os fãs que o digam.

Ponto é que: Ghost in the Shell é uma dessas obras que tem tanto pra dar que não fazê-lo é um desperdício, e talvez até ofensivo para os fãs. Também é uma dessa que já tiveram um monte de adaptações, que já inspiraram muita coisa, e boa parte dessas versões alternativas são bem feitas e acrescentam em algo.

A Vigilante do Amanhã, inspirado de uma franquia cujos filmes têm uma média de 8 em avaliações, além de ter séries de TV e um monte de mangás, não tem desculpa para ser a bagunça sem alma que é. Ele tem material de sobra para ser usado, independente do público que se queria atingir, e deveria ter aproveitado melhor as suas fontes de referência.

Como a Fernanda Schmölzmeier do canal Sugar Rush disse em uma análise incrível do filme: parece que Hollywood não tem culhão pra fazer Ghost In The Shell como ele poderia e deveria ser.