Me interesso rapidamente por qualquer ficção espacial. É algo que não consigo evitar, gosto bastante do assunto. Justamente por isso, me animei sem demora para ler Sombras do Paraíso. Mas o que realmente chamou minha atenção — e jogou o livro para o topo da minha lista de prioridades de leitura — foi o fato dessa história ser escrita por David S. Goyer. O cara que tem em seu currículo o roteiro de uma das trilogias de filmes de super-heróis que mais curto: Batman: O Cavaleiro das Trevas. Infelizmente, isso não bastou para salvar Sombras do Paraíso de ser uma leitura decepcionante para mim.

E eu achando que dos caras responsáveis por este filme não poderia fazer algo ruim…

O livro tem uma premissa legal, uma ideia original, mas tem uma execução fraca a ponto de me dar vontade de pular páginas e mais páginas, tamanho o desinteresse que ele me causou. E mesmo com todas as ressalvas possíveis — iremos falar delas logo mais —, não voltaria a ler essa história novamente. Perdeu a chance comigo.

Duas coisas certamente atrapalham e acabam causando desânimo numa leitura. Uma delas certamente é o excesso de detalhes onde deveria haver mais ação e continuidade da história. A outra é quando falta profundidade e descrição e sobra velocidade de narrativa. Sombras do Paraíso peca nesse último quesito. E muito.

Mas antes de discutir problemas e ressalvas, vamos parar um pouco para falar sobre a obra.

Um asteroide de mais de um quilômetro de diâmetro adentra as órbitas dos planetas do Sistema Solar e se dirige ao Sol. Sua trajetória se originou na constelação de Octans (que fica no nosso pólo sul celeste) e ele passará próximo ao planeta Terra no ano de 2019, se tornando desta forma um NEO (Near-Earth Object), ou, um Objeto Próximo à Terra. Sem oferecer risco à espécie humana em sua intersecção com a órbita de nosso planetinha, Keanu (NEO… Matrix… Keanu… Pegou?) se torna uma excelente oportunidade para uma viagem espacial tripulada. Afinal, tão pertinho… Por que não, né?

Obviamente os americanos estão nesta briga, seguidos bem de perto por uma coalizão improvável de Rússia-Índia-Brasil — digo improvável porque Japão, Europa e China têm programas espaciais muito mais desenvolvidos que Índia e Brasil. Mas foi legal ver nosso país representado, e isso conta!

Apesar da “vitória” da equipe americana da Destiny nessa mini-corrida espacial, a equipe da Brahma também realiza com sucesso sua aterrissagem em Keanu. Oito homens e mulheres estão pisando em um asteroide pela primeira vez na história da humanidade. E todo esse esforço é recompensado com uma surpresa: Keanu não é um asteróide no perfil exato da palavra — apenas gelo e rocha. Ele é bem mais do que isso.

Woooow. Falei que a ideia do livro era bem legal. Me deixou animado, surpreso, ansioso. Na hora pensei que SdP poderia ser um segundo Perdido em Marte, a melhor história de exploração espacial que já li e que já vi adaptada ao cinema.

NEOs são objetos de preocupação no mundo real e a NASA trabalha para catalogar aqueles que podem oferecer riscos ao nosso planeta. E apesar deles serem os vilões em outras ficções (Impacto Profundo e Armagedom), Goyer explorou uma possibilidade muito mais interessante ao decidir que seus personagens pousariam no asteroide. Além disso, a opção de Goyer foi mais realista, pois NEOs têm muito mais chances de nos ensinar sobre a formação do Sistema Solar do que nos destruir em um cruel e inevitável apocalipse. Quem acompanhou a saga da sonda Rosetta em busca do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko sabe do que estou falando.

Não tinha como essa coisa daora dar errado, tinha? Pois é. Com a faca e o queijo na mão, Goyer me provou que tinha sim.

Eu bem que tentei, mas não consegui me satisfazer com a história extremamente rasa de SdP. Faltou um pouco de tudo para mim, e olha que eu não faço parte do grupo de leitores mais exigentes.

Uma aventura épica — como SdP é vendido — pede um nível maior de detalhamento e não foi o que encontrei. Houve pouca preocupação do autor em descrever melhor seus cenários, seus personagens e a dinâmica da história. Faltou muita informação até para que eu pudesse imaginar os lugares que o autor queria que eu imaginasse e as pessoas que ele desejava me apresentar. Muitos capítulos têm entre 3 a 5 páginas, circulando entre diferentes núcleos de personagens. Isso impediu o desenvolvimento de uma história mais robusta, que fosse ficando mais intrincada à medida que você fosse se aproximando do clímax. O livro tem o mesmo peso, do início ao fim.

O resultado foi um romance com personagens fracos que não me conquistaram ou emocionaram, de profundidade pífia e com um timing triste. Tudo acontece tão rápido, que quando você se dá conta, acabou e você ficou cheio de dúvidas. Eu pelo menos fiquei com aquela cara de what? no final. Uma pena.

Nesse sentido, SdP me lembrou bastante a decepção que senti ao assistir Prometheus. Além de outras coincidências entre essas duas histórias (spoiler?!), o filme de Ridley Scott também começou me apresentando uma ideia legal de exploração espacial e terminou sendo uma das minhas maiores decepções cinematográfica.

Mas vamos às ressalvas.

A primeira delas diz respeito às minhas expectativas quando a SdP. Estava querendo muito ver algo parecido com Perdido em Marte, mas que tivesse saído das mãos do bem-sucedido roteirista de The Dark Knight. Estava muito fechado nas minhas expectativas, e ao receber algo diferente, bati com a cara no muro.

Além disso, SdP saiu das mãos de um roteirista, e obviamente, estaria mais para um roteiro do que para um romance propriamente dito. Apesar de Michael Cassutt (também roteirista mas com experiência de escritor) ter auxiliado na produção desse livro, me pareceu que nenhuma mudança significativa foi feita. Apenas alterações suficientes para criar uma versão propícia a um romance.

A terceira ressalva que faço é como essa história foi estruturada. Sombras do Paraíso é apenas a primeira parte da história e outras duas completam a narrativa – Heaven’s War e Heaven’s Fall, ainda sem título em português. Esse fato não necessariamente corrige a narrativa simplista de SdP, que deixa mesmo a desejar como livro; mas, no mínimo, dá rumo e fim a história que se iniciou no primeiro volume.

Por melhor que seja o autor e a obra, é sempre difícil equilibrar velocidade e densidade de uma narrativa. A falta de diversos elementos em Sombras do Paraíso é nítida, mas uma versão cinematográfica certamente seria capaz de suprir a falta de profundidade — de detalhes e de personagens — com informações visuais.

Entretanto, mesmo acreditando que uma versão filme seria melhor que a versão escrita, não colocaria muitas esperanças nisso, não. Se o livro não é bom porque falta conteúdo, o filme teria que se esforçar bastante para compensar esse gap. E sabemos bem que essa fórmula não costuma funcionar.