A Telltale não respeitou o cânone do Batman — e isso é bom

Como a empresa abordou uma história que já vimos à exaustão
por: 17 de janeiro de 2017
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Quando Reino das Sombras (primeiro episódio do Batman da Telltale) foi lançado, escrevi um texto falando sobre a jogabilidade do game e como ele se diferencia da série Arkham, a mais aclamada do personagem nos videogames.

Agora, com o término da primeira temporada, senti a necessidade de voltar a falar do título, mas desta vez por outro motivo: sua história.

AVISO: contém bat-SPOILERS.

Por se tratar de um título da Telltale, que é famosa por focar no storytelling de suas séries, é natural pensar que vou exaltar ou meter o pau no desenvolvimento narrativo de Batman: The Telltale Series. Não é bem assim.

O que quero destacar, na verdade, é a ousadia dos roteiristas por fugirem das histórias clássicas do Homem-Morcego ao criarem uma premissa inédita. Não me refiro a coisas como o uso de vilões não tão populares — que não é exatamente o caso —, ou ao fato de que, pela primeira vez, o Bruce Wayne em si tem tanta importância quanto sua versão vigilante em um game do personagem. Estou falando de pegar o universo do herói e pirar em uma nova história num nível que pode fazer alguns fãs mais conservadores xingarem muito no Twitter.

O Pinguim da Telltale: personagens abordados de formas diferentes dão personalidade ao título.

A novidade mais interessante do título é que, apesar da presença de diversos vilões clássicos como Mulher-Gato, Pinguim, Duas-Caras, Coringa e Victor Zsasz, a antagonista principal do título é uma personagem quase inédita — explicarei o porquê em breve —, cujo background está atrelado a mudança mais ousada em relação ao cânone do super-herói: a origem do Batman.

Confesse: você não aguenta mais ver Thomas e Martha Wayne serem assassinados. Pior do que isso, só ver o tio Ben do Homem-Aranha dar seu famoso conselho (“grandes poderes trazem grandes responsabilidades”) all over again.

Infelizmente vemos isso aqui de novo. Contudo, há um twist que muda tudo na história de origem na versão Telltale que a deixa mais interessante: o pai de Bruce ser um bandido “com B maiúsculo”, como diria minha avó. Normalmente retratado como um amor de pessoa em boa parte das adaptações, o pai do herói torturava pessoas até deixá-las insanas e, assim, conseguir na justiça suas propriedades para utilizá-las como bases de operações ilegais de seus parceiros Carmine Falcone, o mafioso mais poderoso e perigoso da cidade, e Hamilton Hill, o prefeito corrupto. Ou seja: Thomas era um cretino.

É muito interessante moldar a personalidade de Bruce após essa virada de mesa na narrativa. Se em outras obras o herdeiro dos Wayne busca manter o legado da família que lutava por uma cidade melhor, desta vez o personagem busca a redenção de seu nome e tentar provar que, às vezes, o fruto realmente pode cair longe da árvore.

Bruce não quer deixar seu pai orgulhoso, e sim desfazer as maldades que ele fez em vida.

As ações de Thomas mudaram a vida de muitas famílias, incluindo a de Cobblepot — motivo pelo qual ele quer tomar tudo dos Wayne — e a da vilã principal, que em alguns parágrafos acima eu disse que se trata de uma personagem quase inédita. Explico: se você é fã do Batman, o nome Vicki Vale deve soar familiar. A repórter do jornal Gazeta de Gotham é uma personagem recorrente em diversas obras do Morcego, e quase sempre aparece como uma aliada. No entanto, no Batman da Telltale ela também foi reimaginada, e em determinado momento da trama revela ser a Lady Arkham (“Senhora Arkham”, na tradução).

O interessante disso é que a história do jogo poderia tomar um rumo mais seguro e cair em um lugar comum para agradar os fãs mais hardcore — como por exemplo, revelarem que tudo faz parte de um grande plano orquestrado brilhantemente pelo Coringa, que aparece nos últimos dois episódios.

Ao invés disso, a Telltale opta por reutilizar uma personagem recorrente e subaproveitada, e criar um background bem encorpado e pesado para ela: Vicki teve seus pais biológicos mortos a mando de Thomas Wayne, e a futura antagonista foi torturada quando criança pelos pais adotivos. Com isso, a decisão de criar uma vilã inédita e que é revelada aos poucos na trama deixa o jogo menos previsível e mais divertido.

A vilã criada especialmente para o jogo é claramente inspirada em um clássico recente dos quadrinhos, a Corte das Corujas.

Se as mudanças criativas do jogo em relação ao material canônico do Batman são boas ou ruins, depende da avaliação de cada pessoa. (Para mim, foram ótimas!)

Contudo, independente do que eu ou você achamos, deve-se elogiar a postura da Telltale e sua decisão de não se contentar em fazer mais do mesmo. Nós já sabemos a origem do Batman, já o vimos enfrentar os mesmos vilões em múltiplas ocasiões e em mídias diferentes. Não custa nada, vez ou outra, arriscar e entregar uma história diferente.