O que aconteceria se você pudesse revisitar as suas próprias memórias? A ideia de poder percorrer novamente por certas lembranças do passado e explorar aquele forte sentimento de nostalgia que nos acerta de tempos em tempos pode parecer estranha. Surreal até. Em The Gardens Between, novo indie do estúdio australiano The Voxel Agents, a ideia é justamente essa: embarcar em uma jornada surreal construída a partir das memórias de uma grande amizade, criando uma experiência como nunca antes vista.

A proposta do jogo é, superficialmente, bem simples. The Gardens Between acompanha uma dupla de amigos, Arina e Frendt, que exploram vários mundos repletos de ilhas que contém elementos e objetos da sua história. Em cada ilha, um pedaço diferente da história da amizade da dupla é explorada. Com o controle em mãos, o jogador pode interagir de forma limitada com alguns elementos do cenário e tem total controle do tempo – podendo avançar e voltar quantas vezes achar necessário – e progride ao desvendar uma série de puzzles que levam sempre até o topo de cada uma dessas ilhas.

Essa é uma das trajetórias mais tocantes que você vai viver esse ano

É um gameplay de mecânicas simples, mas certamente único. O caminho seguido pelos protagonistas é pré-determinado pelo jogo e a intervenção do jogador nas ações de ambos é, propositalmente, bastante limitada — você pode comandar Arina para pegar e remover objetos do cenário e Frendt para um controle adicional no tempo, mas nada além disso. Em pouco tempo, é fácil perceber que o jogador conduz mesmo o tempo e não os personagens — eles estão ali para você vivenciar, e não interferir, na história deles.

A verdadeira riqueza da narrativa (e do jogo em si), portanto, está no implícito. Existe uma mensagem subentendida sobre o poder da amizade e como as memórias tem um papel importante nisso. O jogador poder controlar o tempo não é uma simples mecânica de gameplay e sim existe ali por um propósito, fazendo sentido estar presente. Explorar essas ilhas misteriosas e resolver puzzles interagindo com objetos do passado faz o jogador refletir, mesmo que indiretamente, sobre os fundamentos, sobre o alicerce, de uma amizade.

Os êxitos do jogo, no entanto, não estão apenas na mensagem que ele procura passar. Esse background torna o contexto interessante e rico, mas a jogabilidade também é genuinamente divertida. Passear pelas misteriosas ilhas é um deleite e poder interagir com os obstáculos é incrivelmente estimulante. Os puzzles inicialmente tem uma resolução relativamente simples, mas ficam gradualmente mais complexos e desafiadores — porém nunca causando uma experiência frustrante, uma vez que o jogo nunca te pune de forma definitiva e chegar ao final da ilha é sempre recompensador. Sem contar que a engenhosidade na resolução de certos puzzles é certa de trazer belos sorrisos ao rosto do jogador.

É fácil se identificar de tempos em tempos com as memórias dessa dupla — e isso faz parte da experiência

Em um jogo tão firmado em sentimentos, a atmosfera criada é outro ponto positivo e que apenas acrescentam à experiência. O jogo como um todo tem um visual bastante leve, com belíssimos gráficos cel-shaded e cores num tom mais pastel, que trazem um sentido de serenidade, além de uma belíssima e calma trilha sonora assinada pelo compositor Tim Shiel, que ajudam a formar uma encantadora e serena ambientação com grande eficiência. Avançar em The Gardens Between nem sempre é uma tarefa fácil, mas o conforto e tranquilidade presente nesses mundos dificilmente fará o jogador sair irritado.

Mesmo não sendo a nossa história, as nossas memórias, é quase impossível não se identificar com The Gardens Between. Passear por misteriosas ilhas e visitar a história de Arina e Frendt é uma experiência relaxante e acessível, uma atividade bastante contemplativa, capaz de evocar sentimentos interessantes em quem está conduzindo aquela história. A criatividade massiva e progressiva dos puzzles, em conjunto com uma ambientação perfeitamente construída, transformam o jogo em um dos indies mais interessantes desse ano e um jogo praticamente imperdível. Disponível via Steam, Playstation 4 e Nintendo Switch, essa é definitivamente uma recomendação certeira e capaz de agradar os mais diversos tipos de jogadores.

Agradecemos à The Voxel Agents pelo código fornecido para a análise do jogo