Por Renata Vomero.

Convido vocês, leitores a fazer um pequeno exercício: pense no último filme que você assistiu.

Nele, havia personagens femininas? Você sabe o nome delas? Elas conversavam entre si — e se sim, as conversas giravam em torno de algo que não fosse um personagem masculino? Se você respondeu sim para todas as perguntas, o seu filme traz um retrato realista das personagens femininas. Contudo, se algum questionamento teve uma negativa na resposta… BAAAAAAM! É só mais um produto que retrata as mulheres por meio de um olhar machista.

Tendo em vista que vivemos em um mundo ainda bastante misógino, não surpreende ━ mas deveria surpreender — vermos tão poucos exemplos de filmes que dão um ângulo diferenciado às mulheres ━ quando digo diferenciado, quero dizer fiel e próximo da realidade. No entanto, isso não é desculpa para fecharmos os olhos quanto a essa desigualdade, não é mesmo? Foi assim que, em 1985, a quadrinista Alison Bechdel resolveu mostrar sua indignação a respeito do retrato da mulher no cinema em uma de suas tirinhas da série Dykes To Watch Out For.

Na tirinha intitulada The Rule, Bechdel mostra a personagem em frente a um cinema, expressando basicamente as mesmas perguntas que iniciaram esse texto.

O questionamento colocado na história foi tão pertinente que, poucos anos depois, alguns coletivos feministas do audiovisual retomaram a tirinha para criar o Teste de Bechdel ou Teste de Bechdel-Wallace (Alison afirma que a ideia desta regra surgiu de sua amiga Liz Wallace), uma forma de avaliar a qualidade das representações femininas nos filmes — mas que também pode se estender para outras mídias. O teste traz três requisitos:

1. O filme deve ter pelo menos duas mulheres com nomes;
2. Elas devem conversar entre si;
3. A conversa deve ser sobre qualquer coisa que não seja um homem.

Parece simples, não é? Bom, não é. A questão é que, enquanto o entretenimento continuar olhando para as mulheres por meio de estereótipos de gênero, seus produtos permanecerão falhando no teste.

Se o cinema é um retrato da nossa sociedade, ele ainda peca ao não desenvolver personagens femininas reais, com problemas comuns a todos, com questionamentos, sentimentos, reações e atitudes inerentes de qualquer ser humano. Parece impossível, aos olhos de diretores, produtores e roteiristas, pensar na complexidade feminina tão qual a masculina. A gama de personagens masculinos é infinita, e entre eles estão todos os tipos, formas e facetas. Mas entre nós, mulheres, estão sempre as mesmas personagens femininas criadas para dar força ao homem protagonista, como uma espécie de muleta para servir ao seu desenvolvimento na história. Seja como mãe, seja como esposa, seja como irmã ou amiga, estamos ali retratadas apenas em função do homem, esteja ele na história ou na plateia.

Claro que o teste não opera milagres, mas ele é uma ferramenta que nos permite ter um olhar mais crítico sobre as produções, não nos deixando aceitar o mais do mesmo. Obviamente, isso tem um impacto nos bastidores, já que essa preocupação sobre a representação feminina tem ganhado cada vez mais força entre crítica e público (e público quer dizer dinheiro, não é?). Toda essa movimentação também ajuda a estimular e apoiar um aumento e reconhecimento das mulheres que trabalham com cinema. Afinal, nada melhor do que nós mesmas para contarmos as nossas próprias histórias.

Mulher-Maravilha (2017), dirigido por Patty Jenkins, pode ser um divisor de águas na representatividade feminina nos cinemas.

No entanto, esse não é o único impacto que o teste vem tendo dentro do mercado cinematográfico. Em 2013, Ellen Tejle, dona de um cinema em Estocolmo, criou o selo A-rate, usado para classificar os filmes que passavam no Teste de Bechdel. A ideia foi super bem aceita ao redor do mundo e chegou ao Brasil no início de 2017, sendo utilizada por algumas salas de cinema e distribuidoras. Nos resta saber qual será o seu impacto na divulgação e produção dos nossos filmes.

É importante deixar claro que o teste não avalia a qualidade do filme em si, e por isso não deve ser a única ferramenta de análise de uma obra. Além disso, essas regras ainda podem deixar escapar algumas falhas de representação feminina. É o caso de alguns filmes que, apesar de retratarem as mulheres de uma maneira mais redonda, ainda estimulam a rivalidade feminina, que também é fruto do sexismo — como por exemplo, O Diabo Veste Prada e Cisne Negro.

Também não temos a garantia de que, apesar da história passar no teste, ela vá, de fato, trazer um ângulo mais realista quanto às suas personagens. Tampouco significa que uma narrativa que tenha sido reprovada nele não possa trazer algo de interessante em termos de representação, já que alguns filmes com pouquíssimas personagens femininas podem mostrar certa profundidade em apenas uma personagem.

Pensando nisso, algumas internautas propuseram o teste Mako Mori, inspirado na personagem homônima interpretada pela atriz Rinko Kikuchi no filme Círculo de Fogo, de Guillermo Del Toro. O teste traz também três proposições que devem ser respeitadas para que o filme seja considerado uma obra com boa representatividade feminina. São elas:

1. A história deve ter ao menos uma personagem feminina;
2. A personagem deve ter seu próprio arco narrativo;
3. Arco que não sirva para dar suporte à narrativa de um personagem masculino. Ou seja, roteiros com mulheres que sejam donas de suas próprias histórias, assim como todas nós.

Círculo de Fogo acabou sendo um filme bem mais importante do que parecia…

Muitos chamam de mimimi ou drama, mas não existe nada mais gratificante do que poder se enxergar nas telas; poder se reconhecer diante de histórias tão incríveis e cheias de nuances.

Precisamos de mais filmes como Lady Bird e Mulher-Maravilha dirigidos por mais mulheres como Greta Gerwig e Patty Jenkins. São momentos proporcionados por obras como essas que nos legitima como pessoas e que nos faz perceber que nosso lugar é onde nós quisermos, e não onde querem que estejamos. São histórias com mulheres cheias de complexidade que nos fazem sentir pertencentes na sociedade e também dignas e capazes de promover qualquer transformação em nós ou ao nosso redor. Afinal, se a Mulher-Maravilha consegue, por que nós não conseguiríamos?

Independente de testes e regras para que um filme seja considerado justo e igualitário na representação de gêneros, é importante termos sempre um olhar mais atento ao que estamos consumindo. Uma história pode ser responsável por reforçar preconceitos e desigualdades, mas, da mesma maneira, ela também pode ser a chave para transformarmos a nossa dura realidade.