Sabe aqueles dias em que você olha pra sua watchlist ou procura pelo catálogo inteiro de algum serviço tipo Netflix, Now e nada lhe parece legal o bastante pra fazer você apertar o play?

Foi em um desses dias de tédio e indisposição que me peguei procurando por filmes desconhecidos e dei de cara com Upgrade, que me chamou atenção pela sinopse: “Após sua esposa ser brutalmente assassinada por um ladrão que também o deixa tetraplégico, Grey Trace (Logan Marshall-Grenn, de Prometheus e Homem-Aranha: De Volta ao Lar) é abordado por um inventor bilionário que lhe oferece uma cura experimental que promete fazer um upgrade em seu corpo. A cura — uma inteligência artificial chamada STEM — concede à Grey habilidades físicas acima de qualquer coisa já vista e também as habilidades necessárias para que ele se vingue daqueles que mataram sua esposa e o deixaram para morrer”.

Como eu não sabia da existência desse filme?! Resolvi assistir na hora e me surpreendi positivamente.

Dirigido por Leigh Whannell (Sobrenatural 3: A Origem) — que tem em seu currículo mais trabalhos como ator do que como diretor — Upgrade, como disse no título do post, parece uma mistura de Isaac Asimov com Paul Verhoeven — às devidas proporções, é claro.

Em relação à inspiração de Asimov, é meio óbvio que qualquer obra que fale sobre robôs e tecnologia será automaticamente associada ao aclamado autor. No entanto, Upgrade me lembra bastante Eu, Robô quando o assunto é sobre a evolução de um sistema artificial e suas relações com as famosas leis da robótica. Apesar do filme não abordar diretamente este tema específico, a ambientação e a trama por si só acabam fazendo esta associação — sem contar o plot twist do último ato, mas não vou dar spoilers.

Aprimoramentos tecnológicos para um cara que teve sua vida destruída: nada original, mas ainda é bem interessante!

Quanto à Paul Verhoeven, existem duas inspirações extremamente claras do diretor. A primeira delas fica óbvia já pela sinopse: Robocop. Pode até ser uma referência clichê, mas é impossível não lembrar do Policial do Futuro: o cara sofre um acidente e recebe um chip que o transforma num badass com biotecnologia e sai em busca de vingança! Claro que não é exatamente igual — aqui o protagonista mantém seu corpo inteirinho e os aprimoramentos são internos — mas, ainda assim, a associação é inevitável.

Mas não é só por lembrar um pouco a premissa de Robocop que digo que Whannell se inspirou em Verhoeven. O estilo do diretor no filme de 87 também se faz presente em Upgrade, com bastante violência, sangue e brutalidade. O filme não tem medo de literalmente estourar miolos na cara do espectador para deixar bem clara suas inspirações e referências.

Além disso, uma das melhores coisas do longa é a parte coreógrafa das lutas e o posicionamento das câmeras nas partes de ação: as lutas são dinâmicas e brutais, e o trabalho de Marshall-Green quando a inteligência artificial assume seu corpo nos momentos das brigas é digna de elogios. As câmeras ajudam a dar ainda mais dinâmica às cenas, não deixando escapar nenhum detalhe. É realmente um trabalho técnico incrível, especialmente para um filme com um orçamento abaixo dos grandes filmes de Hollywood.

As sequências de luta são os destaques do filme.

Do jeito que escrevi até o momento, vocês devem achar que esse filme é uma obra-prima. Não é. Ele tem vários problemas, que vão desde algumas atuações bem ruins à problemas de roteiro com algumas soluções bem fáceis e diálogos rasos e cheios de clichês. No entanto, Upgrade é aquele tipo filme que consegue prender tão bem e tem tanta coisa legal, que no final acabamos relevando esses problemas.

Upgrade não é o melhor filme do ano, mas é aquele tipo de obra que diverte e faz você gastar bem o seu tempo durante uma hora e meia que passa voando. Ele é brutal, objetivo, bem filmado e tem um desfecho nada óbvio — mesmo dentro de uma certa previsibilidade. Se você curte esse tema de tecnologia tão abordado por Asimov e esse estilo brutal e violento do Robocop de Verhoeven, dê uma chance para o filme de Whannell. Você não vai se arrepender.