Se você detestou o primeiro Watch Dogs e torceu o nariz para o título deste post, não vá embora! Eu garanto que a sequência do jogo é muito mais divertida, e vou contar como está sendo a minha experiência hackeando São Francisco.

No entanto, antes disso, preciso relembrar um pouco o porquê do primeiro game da série, lançado em 2014, não ter agradado tanto.

Apesar de não concordar com a grande maioria das pessoas em relação a qualidade do primeiro game — sim, eu gosto do jogo, ok? Move on! —, preciso admitir que ele ficou devendo bastante em relação ao que era esperado. Não vou entrar na questão do protagonista ou da história, que são elementos bastante criticados, mas quero falar do conceito central de WD: as habilidades de hacker.

Para o primeiro game da série, a Ubisoft prometeu uma cidade de Chicago totalmente hackeável. Em partes, essa promessa foi cumprida, porque é realmente possível hackear quase tudo o que compõe o mundo aberto do game: as câmeras, os celulares, os equipamentos elétricos, os sinais de trânsito, entre outras coisas.

Mas então, qual o problema do primeiro Watch Dogs?

Normalmente histórias de vingança dão certo. O que aconteceu com o primeiro Watch Dogs?

O problema é que toda essa temática hacker acabou como pano de fundo para um jogo de ação. A forma com a qual os jogadores podem utilizar os recursos e as habilidades hacker de Aiden Pierce durante a história são muito limitadas, e não demora muito para que o gameplay fique repetitivo. Afinal, por que ficar no stealth de sempre (acessar câmeras e explodir coisas), se podemos resolver a missão de uma forma bem mais rápida, chegando atirando em tudo e em todos a la GTA?

E é exatamente nessa questão que Watch Dogs 2 não só se mostra uma evolução em relação ao título anterior, como também apresenta inovações que incorporam a temática hacker ao modo stealth do gameplay, o que acaba tornando a experiência de jogo muita mais variada e divertida.

Um bom exemplo dessa variedade no estilo stealth é a adição de gadgets para Marcus Holloway, o novo protagonista: os jogadores agora não contam apenas com um celular e um notebook, como também contam com um jumper (uma espécie de carrinho de controle remoto) e com um drone.

Com esses gadgets, os jogadores podem acessar áreas que Marcus não consegue, criar distrações, traçar estratégias, entre outras coisas. Sem contar que a pistola default usada pelo personagem é uma arma não letal de eletrochoque que, apesar de facilitar o modo furtivo por colocar os inimigos para dormir e não fazer barulho, pode mudar a dinâmica da abordagem silenciosa do jogador por funcionar por um tempo limitado: quando o inimigo atacado acorda, ele alerta aos outros que logo iniciam uma busca na área, obrigando os jogadores a tomarem mais cuidado caso queiram manter a estratégia e evitar confrontos diretos.

Os novos gadgets de Marcus ampliaram as possibilidades e habilidades de hackeamento da franquia.

Além disso, existem algumas habilidades que você pode destravar ao longo do jogo que podem mudar radicalmente sua estratégia na hora de uma missão — como, por exemplo, fazer qualquer pessoa parecer suspeita para a polícia ou para uma gangue.

Vou contar uma das coisas que fiz em uma missão recente que é um bom exemplo do uso dessas habilidades de incriminação. Eu precisava invadir uma área com muitos inimigos. Usei o drone e hackeei as câmeras para traçar uma estratégia. Mas pelo posicionamento e pela movimentação dos capangas, não consegui pensar em um jeito de entrar e sair na surdina, sem trocar tiros e correr o risco de chamarem reforços e complicar minha vida.

Foi então que resolvi testar esse recém-adquirido recurso de incriminação: escolhi uma vítima aleatória, que foi denunciada para a polícia como foragido da justiça. Em poucos segundos, dois policiais chegaram para abordar o sujeito, que reagiu puxando uma arma. Enquanto rolava o tiroteio, resolvi colocar mais fogo na situação e incriminei outro capanga — desta vez, para uma gangue rival. Momentos depois a tal gangue chegou, e o resultado foi um verdadeiro caos: reforços de todos os lados eram chamados; a polícia trocava tiros com as duas gangues, que também trocavam tiros entre si. Após muitas baixas, uma gangue dispersou, os sobreviventes da outra fugiram e a polícia os perseguiu São Francisco afora. E eu — que estava do outro lado da rua acompanhando a uma distância segura através das câmeras — entrei, peguei o que precisava e sai. Sem disparar um tiro. Sem fazer um só esforço a mais.

O stealth em WD2 vai além de se esconder atrás dos objetos.

Talvez você esteja pensando: “tá, mas isso aí também enjoa depois de um tempo”. Sim, é verdade. No entanto, o jogo é construído de uma maneira que impede os jogadores de terem os mesmos resultados fazendo sempre as mesmas coisas.

Explico: nem todo capanga vai puxar a arma ao ser abordado por um policial; nem sempre os policiais vão ter tempo de pedir reforços; a opção de incriminação policial não está disponível quando você está em missões como invadir a agência do FBI… Ou seja: as pessoas e o mundo de WD2 reagem às ações de Marcus e às quebras de rotina de forma inesperada e variada, e isso é incrível.

Embora tenha curtido o título de estreia — que, apesar dos problemas, tem sim seus méritos —, é impossível negar que Watch Dogs 2 é uma evolução em todos os sentidos: de história, de construção de personagens e, principalmente, na questão da jogabilidade e na incorporação do tema central   no gameplay.

Agora, se me dão licença, tenho uma cidade para hackear.