O clássico da década de 70 de Michael Crichton, Westworld – Onde Ninguém Tem Alma, fez muito pela ficção que conhecemos hoje. Ele foi um dos filmes responsáveis por iniciar Hollywood no uso da computação gráfica e de temas mais cabeçudos da ficção científica, se consagrando uma das produções mais importantes para o gênero no cinema.

Sua versão atual, escrita para a TV pelo casal Jonathan Nolan e Lisa Joy e produzida por J.J. Abrams, acaba de ser lançada pela HBO no mundo todo, e tem pouco a ver com o clássico de 73. Ou melhor: apesar de trazer as mesmas bases para sua história, a série cria e inverte ideias presentes na obra original.

O resultado, pelo que seu episódio de estreia indica, é uma obra ousada, inteligente e cheia de potencial — que pode, sim, acabar virando de alguma forma o “novo Game of Thrones”.

Westworld é o nome de uma atração que projeta a realidade do Velho Oeste americano. Essa realidade simulada é uma criação de Dr. Ford (Anthony Hopkins) para que qualquer pessoa possa viver suas fantasias de cowboy sem quaisquer limites. E para que essas fantasias possam ser vividas ao extremo, o mundo de Westworld é habitado por androides — os anfitriões, como são chamados por aqueles por trás das cortinas. Essas pessoas artificiais são programadas para viver acreditando que tudo aquilo é real, e também para, inconscientemente, entrar no jogo de qualquer ideia que os recém-chegados humanos possam ter, das mais leves às mais absurdas e inaceitáveis.

Aí temos o primeiro twist na fórmula original. Enquanto no filme os robôs eram, à princípio, máquinas de consciência muito mais limitada, os seres da série possuem personalidades mais elaboradas e acreditam estar vivos. E isso já reflete em algumas discussões essenciais de cada obra: enquanto uma levantava questões como o que aconteceria se as máquinas se rebelassem contra nós, a outra reflete os tempos atuais e questiona o que nos faz humanos.

Logo no começo já ficamos sabendo que Ford fez uma grande atualização nos anfitriões. Se antes a memória dos androides era apagada após o fim de cada “arco de história” vivido por eles, depois do update essas informações passam a ser guardadas de tal forma que os seres mecânicos às revisitem como sonhos ou pesadelos, favorecendo para que essas máquinas desenvolvam suas próprias personalidades e reproduzam devaneios característicos da raça humana.

“O prazer brutal tem final violento”: reflexões o entretenimento fazem parte da série.

“O prazer brutal tem final violento”: reflexões o entretenimento fazem parte da série.

Esses androides mais humanos e sem a percepção do que realmente são bate de frente com a realidade dos humanos apresentados no primeiro episódio. Se no filme éramos convidados a acompanhar a história pela perspectiva de alguns dos humanos recém-chegados no parque — principalmente de John Blane (James Brolin) e Peter Martin (Richard Benjamin), os galãs e heróis do filme que visitavam o mundo do faroeste —, agora começamos com uma visão privilegiada das pessoas por trás da atração, e mais ainda dos androides.

Isso coloca aqueles que pagam para estar no parque quase como verdadeiros monstros, pois vemos que a principal intenção de muitos ali é sair das rédeas da sociedades e fazer o mal. É, para aqueles que entendem um pouco mais da nossa história, algo que explica o porque da preferência pelo mundo do Velho (e sujo) Oeste norte-americano.

Nesses grupos, vale o destaque para os personagens de Hopkins, Jeffrey Wright, Ed Harris e Evan Rachel Wood, sendo que os dois últimos merecem alguns comentários a mais.

O “Homem de Preto” de Harris é a primeira grande anomalia da história. Ele é, sem dúvida, uma peça muito importante para fazer com que o público entenda a trama, e também para dar aos cinéfilos e nerds um gostinho já familiar para aqueles que estão à frente em suas leituras das Crônicas de Gelo e Fogo e acompanham GoT.

Explico: o personagem de Harris lembra muito o pistoleiro de Yul Brynner, principal vilão do filme de 1973. Sua aparência física e seu comportamento nos fazem associar imediatamente um personagem ao outro. Contudo, logo em uma das primeiras cenas do personagem na série, vemos um indício de que talvez os pistoleiros de Harris e de Yul não sejam tão parecidos assim.

Também é curioso o fato do personagem Hector Escaton de Rodrigo Santoro também ser um pistoleiro de roupas negras, e que vemos na abertura da série uma personagem feminina vestindo preto e usando uma pistola.

O que isso poderia significar? Será que a ideia é só nos confundir, ou já podemos começar a imaginar o futuro de alguns personagens por essas pistas?

Ed Harris, Yul Brynner e Rodrigo Santoro: os pistoleiros que vestem preto.

Ed Harris, Yul Brynner e Rodrigo Santoro: os pistoleiros que vestem preto.

O piloto, The Original, tem muito mais do que parece. Muitos questionamentos são pincelados, uma quantidade absurda de personagens é introduzida, o novo Westworld é apresentado. E se fosse falar mais dele por aqui, provavelmente acabaria prolongando essas impressões mais do que o necessário.

Então encerro por aqui, dizendo apenas o que já foi dito por aí e que pede repetição: Westworld é uma aposta muito alta da HBO, e das boas. É uma história inteligente que não subestima o público.

Ela pode ser um Black Mirror com suas pitadas de Lost. Pode ser que sua trama e os questionamentos nela, se bem desenvolvidos, façam com que Westworld se torne para a ficção científica moderna o que Game of Thrones passou a ser para a fantasia após a série virar febre entre fãs.