Wytches e o terror da vulnerabilidade humana

Um quadrinho sobre bruxas, mistérios e a fragilidade da vida
por: 03 de outubro de 2017
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Fazia um bom tempo que Wytches figurava no topo da minha lista de desejos da Amazon. Promoção após promoção, muitas vezes passei outros quadrinhos na frente e deixei a HQ de Scott Snyder para outro momento.

Contudo, não teve jeito. Não pude esperar mais. Precisava conferir a obra que canais como Pipoca & Nanquim e 2Quadrinhos apontam como “uma das melhores leituras do ano”.

Além das indicações dos canais que sigo, três coisas me deram vontade de adquirir o material: primeiro, porque quero me aproximar mais do gênero do terror, que acabei me afastando nos últimos anos. Segundo, por ser uma criação de Scott Snyder, o responsável pela “trilogia da Coruja”, uma das melhores fases recentes do Batman nos quadrinhos. Por último, e não menos importante, porque a editora Darkside tem feito um trabalho impecável com seus livros, o que me deixou bem curioso pra conferir os materiais do seu novo selo de quadrinhos — que já tem no catálogo títulos como Black Hole, Fragmentos do Horror, Meu amigo Dahmer e Atômica.

Wytches é um dos primeiros materiais do selo de quadrinhos da Darkside.

Bom, mas chega de papo e vamos ao que interessa: Wytches, o quadrinho de terror que promete apresentar um novo conceito sobre o que são bruxas para a cultura pop. E, de certa forma, ele faz isso mesmo.

A história acompanha a família Rooks, formada pela adolescente Sailor e seus pais Charlie e Lucy. Após um acontecimento traumático (e misterioso) na vida da filha, o escritor e a enfermeira decidem mudar de cidade para recomeçar a vida em um lugar onde supostamente ninguém os conhece. No entanto, o passado volta para assombrar Sailor, e assim começa a trama.

Sem dar muitos detalhes pra não estragar a experiência, as bruxas desta HQ são realmente diferentes do que estamos acostumados a ver por aí. Aqui elas são retratadas como monstros sobrenaturais — mais próximos ao conceito original das Sereias, talvez —, e a clássica história das pessoas serem jogadas na fogueira no passado acusadas de bruxaria se aplica aos seguidores delas, que têm um papel fundamental na mitologia de Snyder. É uma espécie de trato entre humanos e bruxas, no qual todos saem ganhando — com exceção, é claro, das vítimas.

Gostei bastante desse novo conceito de bruxas apresentado em Wytches. A história realmente tem elementos de terror e mistério, e a arte de Jock, as cores de Matt Hollingsworth e até a tipografia de Clem Robins reforçam esse clima sobrenatural do quadrinho.

Todos os elementos que compõem a HQ reforçam o clima de terror e mistério.

No entanto, não foi a mitologia da HQ que mais me surpreendeu. Existe um outro tipo de terror nas páginas de Wytches que vai além do que o gênero propõe. É um terror causado também pelo desconhecido, mas não pelo sobrenatural, e sim pelas inseguranças e incertezas da vida.

Durante a leitura fica nítido que esse quadrinho é extremamente pessoal para Snyder. Mais do que isso, é uma obra íntima. Isso se confirma após a história, no final do material, onde a Darkside reuniu as cartas do autor que originalmente acompanharam cada edição original americana lançada separadamente em 2014.

Recomendo demais que qualquer pessoa que leia essa obra dedique um tempo para conferir os textos de Snyder. Não só para entender de onde surgiu a ideia central da HQ, mas também para entender porque essa é uma história que, como o próprio autor diz, aguardava para ser escrita.

Se fosse produzida há uns dez, quinze anos atrás, talvez ela fosse apenas uma boa HQ de terror inspirada por brincadeiras da infância do autor, que “caçava bruxas” com seu melhor amigo no meio do mato no sul da Pensilvânia. Mas hoje, após Snyder vivenciar problemas da vida que envolvem ansiedade, depressão, bullying e paternidade, a obra ganha uma nova proporção e se torna especial.

Existe medo maior do que perder sua própria filha?

Wytches é um exemplo perfeito de como uma obra pode utilizar da ficção para tratar da realidade e dar corpo e forma ao que existe em nossa mente. Ela não é apenas uma boa história sobre bruxas. É uma história sobre pai e filha. Uma história sobre relacionamento familiar e também sobre a ansiedade, o medo e a insegurança que temos frente ao terror causado pela vida em si.

E, vamos combinar, isso pode ser muito mais assustador do que um bando de bruxas, não é mesmo?