Yooka-Laylee e a missão impossível de competir com a nostalgia

O título da Playtonic faz bonito (mas também erra) na tentativa de resgatar um sentimento de outra era
por: 19 de maio de 2017
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Nostalgia. Nostalgia é uma palavra forte. Especialmente hoje em dia, quando estamos no auge da era dos remakes, reboots e revivals. Foi a partir desse sentimento coletivo de saudade pelo antigo que surgiu a Playtonic Games e Yooka-Laylee, um platformer que foi vendido com a promessa de ser o “sucessor espiritual” de Banjo-Kazooie.

Para quem não se recorda ou não conhece (difícil!), Banjo-Kazooie foi um jogo desenvolvido pela Rare na época do Nintendo 64 e acompanhava a saga do Banjo, um urso, e Kazooie, uma passarinha. O game foi um enorme sucesso, crítico e comercial, gerou uma sequência igualmente bem sucedida (Banjo-Tooie) e causou uma impressão tão boa que os fãs, por anos, ficaram implorando por uma sequência.

Corta para 2015. Inesperadamente surge uma campanha no Kickstarter, iniciada por ex-funcionários da Rare, prometendo a tal continuação de Banjo que todos pediam. O resultado foi uma das campanhas mais bem-sucedidas da história do site de crowdfunding, e uma arrecadação mais de 10 vezes maior que o objetivo inicial. Não demorou muito para o projeto ganhar apoio de uma publisher, a Team17, e o que era um pequeno projeto se tornou algo bem maior, com muitas expectativas do público e da crítica. Todos os olhos agora estavam virados para Yooka-Laylee.

Que responsabilidade, hein?!

Finalmente lançado em abril de 2017, Yooka chegou tentando cumprir aquilo que foi prometido durante todas as fases de desenvolvimento do game: proporcionar uma experiência similar àquela que Banjo trouxe há algumas gerações. É aí que entra a parte complicada: como concorrer com esse sentimento forte de nostalgia? Como competir com uma experiência que está fixada de forma tão profunda na mente do consumidor? Essa é a grande questão — e também o maior trunfo e a maior derrota do título.

A premissa de Yooka-Laylee é bem simples. No controle da dupla que dá nome ao jogo, que é composta por um camaleão uma morcega, o jogador precisa recuperar uma série de páginas mágicas, chamadas de Pagies, que estão espalhadas pela Hivory Towers, uma empresa comandada pelo vilão Capital B. Hivory Towers funciona como um hub, que dá acesso a cinco mundos bem diferentes.

Prontos para a aventura!

O objetivo principal é coletar essas Pagies, que estão espalhadas pelo hub e pelos mundos, mas a grande magia do jogo está na forma como você faz isso. Em cada mundo você tem acesso a novas habilidades, adquiridas através da cobra Trowser, o que torna o gameplay bastante dinâmico e sempre com uma nova surpresa na medida em que você progride. Você também tem acesso a diferentes transformações com ajuda da personagem Dr. Puzz: ao longo da jornada, a dupla vira uma flor, um cardume de piranhas e até mesmo um helicóptero.

Cada mundo também tem um mini-game de arcade, oferecido pelo dinossauro Rextro Sixtyforus (uma bela homenagem aos personagens “quadradões” da era 64), uma pista que você percorre a bordo de um carrinho de mina chamado Kartos, cinco fantasmas (ghost writers) para você capturar e 200 penas para colecionar. Apesar de nem tudo dar certo (o mini-game do Kartos é a pior coisa do jogo inteiro — me dá calafrios só de lembrar!), essas coisas são bem intencionadas, ajudam a manter a variedade do jogo e, para alguns, podem ser um break bem-vindo do gameplay “tradicional”.

Para quem é familiar ao Banjo, com certeza já dá para identificar as inúmeras semelhanças, não é? As Pagies são como os Jiggies, as penas são as notas musicais, as transformações da Dr. Puzz são como as do Mumbo Jumbo e por aí vai. A Playtonic levou REALMENTE a sério a sua promessa de criar praticamente um clone de Banjo. Para alguns, a developer acertou em cheio. Para outros, nem tanto. Para mim, ela cumpriu exatamente o que prometeu e conseguiu apresentar um produto final bem sólido. Não é perfeito, mas não faz feio.

“Vai, Yooka! Foge dos haters! Foge, foge!”

Começando pelos detalhes bem sucedidos: o jogo acerta muito bem no tom. É um jogo bastante divertido, com um humor um pouco fora do convencional, algumas vezes bastante ácido e, em algumas ocasiões, discretamente adulto. A simpatia da dupla e dos personagens coadjuvantes ganham a cena por muitas vezes.

Outro grande acerto é que a progressão do jogo é muito justa, natural e você nunca se sente realmente perdido ou sem saber o objetivo, apesar de ter total liberdade de fazer o que quiser dentro dos mapas. A trilha sonora, composta pelo incrível David Wise, é previsivelmente ótima. É nela que você mais se enxerga jogando um grande clássico de outrora.

Já em outros pontos, Yooka-Laylee escorrega um pouco. A jogabilidade, um dos aspectos mais importantes em um jogo do gênero, é bastante inconsistente. Em alguns momentos ela funciona muito bem. Em outros, nem tanto. Em alguns casos, inclusive, a jogabilidade problemática se torna uma dificuldade extra e um obstáculo desnecessário na hora de completar um desafio ou um puzzle. A câmera do jogo também é extremamente problemática — arrisco até dizer que é o maior vilão do jogo! Ela é realmente ruim, atrapalha de forma constante e em certos momentos chega a frustrar. Felizmente, a Playtonic anunciou recentemente que o próximo patch do jogo vai receber melhorias nesse aspecto. Então YAY por isso!

O level design também não é perfeito e, algumas vezes, os mundos parecem desnecessariamente grandes. Mas ainda assim eles conseguem ser divertidos — exceto pelo quarto mundo, que é um conjunto de desastres acumulados. Também é preciso levantar a questão do power meter, uma barra de stamina que limita alguns dos movimentos da dupla. Ela não tem porque estar ali e a sensação é de que a sua única função é de deixar o jogador aborrecido; é algo que não faz sentido para o gameplay e não é relevante para as mecânicas do jogo. O lado bom é que você pode expandir esse power meter, então eventualmente ele se torna um problema um pouco menor.


A minha suspeita é que o Kartos seja o verdadeiro final boss desse jogo. Sério. Argh!

No geral, é um jogo bastante divertido e um platformer eficiente. Como já joguei sabendo de antemão que iria dar de cara com algo muito parecido com Banjo, não deixei as semelhanças entre os jogos me atrapalharem ou afetarem negativamente a minha experiência. Infelizmente, parece que muita gente não conseguiu fazer o mesmo, e isso fez o jogo desagradar um grande público. Mas não se sinta desencorajado pelas críticas: é um ótimo jogo, que me trouxe uma experiência satisfatória. Sempre fui fã do gênero e acredito que o título é capaz de agradar bastante a quem também é — desde que consiga deixar o preconceito de lado e jogar com uma visão mais imparcial.

Yooka-Laylee não é o novo Banjo. Ele não vai ter o mesmo impacto que Banjo teve na época de seu lançamento, e por mais que ele tentasse, acho que nunca conseguiria. Como comecei dizendo nesse texto, é difícil — diria até impossível — competir com um sentimento tão forte e praticamente intocável como a nostalgia. Era uma tarefa difícil para a Playtonic e, na minha opinião, ela conseguiu desenvolver um título que cumpre com competência a sua proposta. Tem seus defeitos, está longe de ser perfeito, mas é um jogo que vale a pena ser jogado.

*agradecemos à Team17 pelo código fornecido para a análise do jogo